Quando eu li a carta que chegou à Casa da República, assinada por Ursula von der Leyen e António Costa, confesso que senti um misto de alívio e preocupação. Alívio porque, depois de 25 anos de conversas, a União Europeia reafirmou o compromisso de fechar o acordo de livre comércio com o Mercosul em janeiro de 2026. Preocupação porque o caminho ainda está cheio de pedras – principalmente na Europa, onde agricultores franceses e italianos levantam bandeiras contra a liberalização das tarifas.
Um acordo que atravessa décadas
O tratado Mercosul‑UE começou a ser negociado ainda em 1999, mas só ganhou força real nos últimos anos, quando o Brasil, a Argentina, o Paraguai e o Uruguai mostraram vontade de abrir seus mercados ao mundo. Para a Europa, o bloco sul‑americano representa um parceiro estratégico: acesso a commodities agrícolas, minerais e a uma população de mais de 260 milhões de pessoas. Para nós, o acordo abre portas para exportar mais máquinas, tecnologia e serviços, além de reduzir tarifas que ainda encarecem produtos como automóveis e equipamentos industriais.
Por que a assinatura ainda não aconteceu?
Na prática, a assinatura do acordo foi adiada duas vezes nos últimos meses. A primeira tentativa, marcada para o sábado, 20 de dezembro, em Foz do Iguaçu (Paraná), foi frustrada porque o Conselho Europeu ainda não concluiu seus trâmites internos. Segundo a carta enviada ao presidente Lula, esses procedimentos já estão em “estágio avançado”, mas ainda precisam da aprovação de maioria qualificada – 15 países que representem 65 % da população da UE.
O ponto crítico está nos agricultores franceses, que temem que a entrada de carne bovina, soja e outros produtos sul‑americanos, produzidos sob normas diferentes, destrua seus preços. A primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, também se manifestou, alegando que a distribuição de verbas agrícolas na UE está comprometida e que, por isso, seu país não pode apoiar o acordo agora.
O que a carta diz exatamente?
- Compromisso firme de assinar o Acordo de Parceria e o Acordo Provisório de Comércio no início de janeiro de 2026.
- Agradecimento ao governo brasileiro pelos esforços de negociação.
- Pedido para que Lula dialogue com os demais membros do Mercosul, mantendo o espírito de unidade.
Em resumo, a UE está dizendo que, se o bloco europeu conseguir alinhar seus votos internos, o acordo será assinado – independentemente da posição isolada da França.
O que isso significa para o cidadão brasileiro?
Para quem acompanha a conta de luz, o preço dos alimentos ou o valor dos veículos, o acordo pode trazer mudanças concretas:
- Produtos agrícolas mais baratos: com a redução de tarifas, frutas, vinhos e queijos europeus podem ficar mais acessíveis nas prateleiras brasileiras.
- Exportação de carne, soja e café: produtores brasileiros ganharão acesso facilitado a mercados como Alemanha, França e Reino Unido, o que pode elevar a demanda e, potencialmente, os preços internos.
- Setor industrial: máquinas agrícolas, equipamentos de construção e tecnologia de energia renovável poderão ser importados com menores impostos, reduzindo custos de produção.
- Investimentos: empresas europeias podem se sentir mais seguras para investir em fábricas, parques logísticos e pesquisa no Brasil, gerando empregos.
Mas nem tudo são flores. A redução de tarifas pode também pressionar produtores locais que ainda não conseguem competir com o preço das importações. Agricultores familiares, por exemplo, podem sentir a concorrência de produtos europeus subsidiados.
Como o Brasil pode se preparar?
O papel do governo, e especialmente do presidente Lula, será crucial nos próximos meses. Algumas estratégias que podem ser adotadas:
- Negociação de cláusulas de salvaguarda: garantir que, em caso de impactos negativos severos a setores estratégicos, haja mecanismos de proteção temporária.
- Investimento em tecnologia agrícola: apoiar a modernização das propriedades para melhorar a produtividade e a competitividade internacional.
- Políticas de apoio ao pequeno produtor: linhas de crédito, assistência técnica e acesso a mercados diferenciados.
- Campanhas de informação: esclarecer aos consumidores e empresários as oportunidades e desafios do acordo, evitando boatos e medo desnecessário.
O futuro próximo: onde e quando será a assinatura?
Fontes da AFP indicam que a assinatura oficial pode acontecer em 12 de janeiro, no Paraguai, durante a cúpula do Mercosul. Se tudo correr como o planejado, Ursula von der Leyen viajará ao Brasil no fim de janeiro para ratificar o tratado, embora essa visita ainda não esteja confirmada.
Enquanto isso, a imprensa brasileira tem acompanhado de perto a reação dos países europeus. A França, apesar de sua oposição vocal, não tem o poder de bloquear o acordo sozinha, conforme ressaltou Lula. O que realmente importa é a maioria qualificada no Conselho Europeu, que, até o momento, parece inclinar-se a favor da assinatura.
Conclusão: um passo importante, mas não o fim da jornada
Para mim, o mais interessante desse processo não é apenas a assinatura em si, mas o que ela simboliza: a integração de duas regiões que, por muito tempo, operaram em silos econômicos. Se bem administrado, o acordo pode ser um motor de crescimento para o Brasil, impulsionando exportações, atraindo investimentos e modernizando setores-chave.
Claro que ainda há riscos e desafios – especialmente para os agricultores que temem a concorrência europeia. Mas, como em qualquer grande mudança, o segredo está em preparar o terreno interno, criar políticas de apoio e, sobretudo, manter o diálogo aberto entre governos, empresas e sociedade civil.
Fique de olho nas próximas semanas. A assinatura pode ser apenas o começo de uma nova fase de comércio internacional para o Mercosul e para o Brasil. E você, já pensou como isso pode afetar o seu dia a dia? Seja na compra de um carro, no preço do café da manhã ou nas oportunidades de emprego na sua região, o acordo Mercosul‑UE tem potencial para tocar a sua vida de maneiras que ainda nem imaginamos.



