Um aumento que dá o que falar
Na última quarta‑feira (24) o Diário Oficial publicou o Decreto nº 12.797, assinado pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, oficializando o reajuste do salário mínimo para R$ 1.621 a partir de 1º de janeiro de 2026. O número pode parecer apenas mais um ponto na planilha do governo, mas, para quem vive de salário mínimo ou recebe benefícios atrelados a ele – como o seguro‑desemprego e o BPC – a mudança tem consequências bem reais no dia a dia.
Como funciona o salário mínimo?
De forma simples, o salário mínimo é a menor remuneração que a lei permite a um trabalhador formal. A Constituição define que ele deve ser suficiente para cobrir necessidades básicas – moradia, alimentação, saúde, educação, lazer, transporte, entre outras – e que deve ser reajustado periodicamente para preservar o poder de compra.
Na prática, isso significa que o valor não pode ficar estagnado enquanto os preços sobem. Se a inflação for de 10 %, o salário mínimo tem que subir, no mínimo, 10 % para que a família consiga comprar os mesmos produtos de antes.
Por que R$ 1.621 e não outro número?
Se o governo seguisse apenas a regra constitucional – corrigir o piso pela inflação – o salário mínimo de 2026 seria em torno de R$ 1.582, considerando a inflação medida pelo INPC de 4,18 % até novembro de 2024. Mas o governo Lula prometeu retomar a política de valorização do salário mínimo, que inclui um ganho real acima da inflação.
A fórmula adotada combina dois fatores:
- Inflação (INPC) dos últimos 12 meses – 4,18 %;
- Um acréscimo real limitado a 2,5 % (por causa do teto de gastos do arcabouço fiscal), que substitui o índice de crescimento do PIB usado antes.
Aplicando esses números, chega‑se ao valor de R$ 1.621, um aumento de R$ 103 em relação ao piso atual de R$ 1.518.
Quem sente o impacto direto?
Além dos 59,9 milhões de trabalhadores que recebem o salário mínimo ou múltiplos dele, a mudança afeta quem recebe benefícios atrelados ao piso:
- Benefício de Prestação Continuada (BPC);
- Seguro‑desemprego;
- Abono salarial;
- Algumas aposentadorias e pensões que têm correção mínima vinculada ao mínimo.
Esses benefícios já entram em vigor no início de fevereiro, então quem depende deles verá a diferença no próximo mês.
O que isso significa para o seu orçamento?
Se você recebe o salário mínimo, o aumento de R$ 103 pode parecer pequeno, mas, quando colocado no contexto de uma família de quatro pessoas, ele representa cerca de R$ 25 a mais por pessoa por mês. Essa quantia pode ser suficiente para cobrir um lanche a mais, pagar um plano de internet ou até mesmo ajudar nas contas de água e luz.
Para quem tem múltiplos do mínimo – por exemplo, um trabalhador que ganha 2 salários mínimos – o efeito é dobrado. O mesmo vale para quem recebe o BPC ou o seguro‑desemprego: o aumento ajuda a reduzir a pressão sobre o orçamento familiar.
Impactos indiretos na economia
O salário mínimo não afeta apenas quem o recebe diretamente. Ele também tem reflexos amplos:
- Elevação do salário médio: ao subir o piso, as empresas tendem a ajustar salários de faixas próximas, o que eleva o salário médio nacional.
- Maior poder de compra: mais dinheiro circula nas mãos dos consumidores, estimulando o comércio e os serviços.
- Pressão inflacionária: o aumento de custos pode ser repassado aos preços, principalmente em setores que dependem fortemente de mão‑de‑obra de baixa remuneração.
Esses efeitos são parte do debate entre economistas que defendem a valorização do mínimo como estímulo ao consumo e aqueles que alertam para o risco de aumento da dívida pública.
Quanto custa esse aumento ao governo?
Todo aumento do salário mínimo gera um efeito cascata nas contas públicas, porque benefícios e obrigações legais precisam ser atualizados. O governo estima que cada real a mais no piso gera uma despesa adicional de aproximadamente R$ 420 milhões em 2026.
Com o aumento de R$ 103, o custo total sobe para cerca de R$ 43,2 bilhões nas despesas obrigatórias. Esse montante compete com outros gastos discricionários, como investimentos em saúde, educação e infraestrutura.
Alguns especialistas sugerem que, para conter a explosão da dívida, o piso dos benefícios previdenciários poderia ser desvinculado do salário mínimo e corrigido apenas pela inflação. Essa proposta, porém, enfrenta resistência porque o piso tem um papel importante de proteção social.
Próximos passos e o que observar
O decreto já está publicado, então o ajuste entra em vigor no primeiro dia do ano e os benefícios começam a ser pagos em fevereiro. Mas o que vem depois?
- Revisão do teto de gastos: se o governo quiser manter o aumento real limitado a 2,5 %, precisará alinhar isso ao novo arcabouço fiscal.
- Negociações com o Congresso: a regra de reajuste pode ser objeto de debate nas próximas sessões, principalmente se a inflação subir mais do que o esperado.
- Monitoramento da inflação: se os preços continuarem subindo rápido, pode haver pressão por novos aumentos ou ajustes temporários nos benefícios.
Para nós, que acompanhamos de perto as mudanças nas políticas públicas, o importante é ficar de olho nos números que chegam ao bolso e nas discussões que moldam o futuro da economia.
Conclusão: vale a pena celebrar?
O aumento para R$ 1.621 traz um alívio imediato para quase 60 milhões de brasileiros. É um ganho real acima da inflação, algo que não acontecia nos últimos governos. Por outro lado, ele eleva as despesas obrigatórias do Estado, o que pode limitar investimentos em outras áreas.
Se você recebe o salário mínimo ou um benefício atrelado a ele, a boa notícia é que seu poder de compra vai melhorar um pouco. Se você não está diretamente afetado, ainda assim sente o efeito nas compras do dia a dia, já que o consumo tende a subir.
Em resumo, o novo salário mínimo é mais do que um número: é uma ferramenta de política econômica que tenta equilibrar justiça social e sustentabilidade fiscal. E, como sempre, o que realmente importa é como esse equilíbrio se reflete nas nossas mesas, nos nossos bolsos e no futuro dos nossos filhos.



