Na última quinta‑feira (18), o Banco Central (BC) divulgou o relatório de política monetária do quarto trimestre e, como sempre, trouxe notícias que mexem com a cabeça de quem acompanha a economia. A principal manchete? Uma projeção de crescimento do PIB de apenas 1,6 % para 2026, o pior resultado dos últimos seis anos, e tudo isso com a taxa Selic ainda presa em 15 % ao ano – o nível mais alto em quase duas décadas.
O que o BC acabou de prever?
Vamos por partes. Primeiro, a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB) para este ano subiu de 2 % para 2,3 %, mas o que realmente chama atenção é a previsão para 2026, ano de eleição presidencial. O BC aumentou a expectativa de expansão de 1,5 % para 1,6 %.
Embora pareça uma melhora, esse número ainda representa a menor taxa de crescimento desde 2020, quando a economia encolheu 3,3 % por causa da Covid‑19. Em termos práticos, significa que a produção de bens e serviços no país vai crescer bem devagar, o que tem reflexos diretos nas contas públicas, no mercado de trabalho e, claro, no nosso bolso.
Por que os juros tão altos?
A taxa básica de juros – a Selic – está em 15 % ao ano. Essa decisão não é feita à toa; o BC usa a Selic para controlar a inflação. Quando a inflação sobe, o BC eleva os juros para esfriar a demanda, e quando a inflação cai, pode baixar os juros para estimular a economia.
O relatório aponta três motivos principais para manter a Selic alta:
- Pressões inflacionárias persistentes: preços de alimentos, energia e serviços ainda estão acima da meta.
- Desaceleração da economia global: um cenário internacional mais fraco reduz as exportações brasileiras.
- Falta de impulso agropecuário: o setor que normalmente dá aquele gás extra ao PIB em 2025 não deve repetir o desempenho.
Além disso, o BC destaca que o “hiato do produto” continua positivo, ou seja, a economia ainda está operando acima do seu potencial sem gerar inflação descontrolada. Mas essa margem está diminuindo, e o BC prefere cautela.
Impacto nas contas do governo
Um crescimento menor do PIB tem consequências fiscais importantes. O governo federal arrecada menos impostos quando a economia anda devagar, o que pode dificultar o cumprimento da meta de superávit fiscal prevista para 2026.
Alguns números que ajudam a entender o cenário:
- Projeto de Lei Orçamentária de 2026 estima crescimento de 2,44 % – bem acima da projeção do BC.
- Se a economia realmente crescer só 1,6 %, a arrecadação será menor, pressionando o governo a cortar despesas ou buscar novas fontes de receita.
- Em ano eleitoral, essas decisões ficam ainda mais delicadas, pois qualquer ajuste fiscal pode gerar debates políticos acirrados.
O ministro da Fazenda, Fernando Haddad, já criticou a manutenção dos juros altos, argumentando que eles freiam o crescimento. Por outro lado, o ex‑presidente do BC, Roberto Campos Neto, defende a postura rígida como necessária para ancorar as expectativas de inflação.
Como isso afeta o seu bolso?
Você pode estar se perguntando: “E eu, o que ganho ou perco com tudo isso?” A resposta está nos três principais canais que a política monetária tem sobre a vida das famílias:
- Crédito mais caro: empréstimos, financiamentos e cartões de crédito ficam mais onerosos porque os bancos repassam a Selic alta.
- Inflação de alimentos e energia: mesmo com a Selic alta, alguns preços continuam subindo – especialmente alimentos in natura e energia elétrica.
- Rendimento da poupança e dos investimentos: por um lado, a taxa Selic alta eleva o rendimento de aplicações atreladas a ela (como o Tesouro Selic); por outro, pode desvalorizar ativos de risco, como ações, que dependem de expectativas de crescimento.
Em resumo, se você tem dívida, vai pagar mais. Se tem dinheiro guardado em investimentos de renda fixa, pode ganhar um pouco mais. Mas o aumento dos preços de alimentos e energia pode acabar consumindo parte desse ganho.
Cenários para 2026 e além
O BC ainda projeta a inflação para 2026 em 3,5 % – ainda acima da meta central de 3 % mas dentro do intervalo tolerado (1,5 % a 4,5 %). Para 2027, a previsão cai levemente para 3,1 %.
Essas projeções indicam que, apesar da Selic alta, o BC acredita que a inflação vai gradualmente se aproximar da meta. No entanto, há riscos que podem mudar esse panorama:
- Volatilidade cambial: uma desvalorização do real encarece importações e pressiona a inflação.
- Eventos climáticos: secas ou enchentes podem afetar a produção agrícola e, consequentemente, os preços de alimentos.
- Política fiscal: se o governo precisar aumentar gastos para cumprir promessas eleitorais, pode gerar mais pressão inflacionária.
Se tudo correr como o BC espera, podemos ver a Selic começar a cair a partir de março de 2026, trazendo algum alívio ao crédito. Mas a queda não será imediata; o efeito completo dos juros leva de seis a 18 meses para se manifestar na economia.
Conclusão – o que fazer agora?
Para quem acompanha a economia, a mensagem é clara: estamos em um período de “juro alto e crescimento tímido”. Isso não é uma catástrofe, mas requer atenção nas decisões financeiras pessoais.
Algumas dicas práticas:
- Reavalie dívidas: se possível, renegocie ou antecipe pagamentos para evitar juros ainda mais altos.
- Diversifique investimentos: mantenha parte da carteira em renda fixa para aproveitar a Selic, mas não deixe de lado ativos de risco que podem se beneficiar de uma eventual retomada do crescimento.
- Planeje o consumo: acompanhe os preços de alimentos e energia; pequenas mudanças no cardápio ou no uso de eletrodomésticos podem gerar economia.
- Fique de olho nas eleições: propostas de candidatos podem influenciar políticas fiscais e, consequentemente, a inflação e os juros.
No fim das contas, o cenário econômico é complexo, mas entender os fundamentos ajuda a tomar decisões mais conscientes. Enquanto o BC luta para equilibrar inflação e crescimento, nós podemos ajustar nossos planos financeiros para atravessar esse período com menos sobressaltos.
Vamos acompanhar juntos as próximas divulgações do BC e ver como essas previsões se transformam em realidade. Afinal, a economia é feita de números, mas também de pessoas como a gente, que precisam lidar com o dia a dia.



