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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

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Por que a assinatura do acordo Mercosul‑UE foi adiada? Entenda os bastidores e o que isso significa para o Brasil

Depois de quase 25 anos de conversas, o tão aguardado acordo de livre‑comércio entre o Mercosul e a União Europeia parecia estar a um passo de se tornar realidade. A Comissão Europeia até anunciou que iria selar o pacto neste sábado, 20 de dezembro, criando a maior zona de livre‑comércio do planeta. Mas, de repente, a assinatura foi empurrada para janeiro. O que aconteceu? E, mais importante, como isso afeta a gente, que vive de exportações, importações e das cadeias globais de produção?

O que estava em jogo?

O acordo Mercosul‑UE não se resume a frutas e carne. Ele cobre:

  • Produtos agrícolas: carne bovina, frango, soja, vinho, queijo, entre outros.
  • Indústria: automóveis, máquinas, produtos químicos.
  • Serviços e investimentos: acesso a mercados de serviços financeiros, tecnologia e infraestrutura.
  • Propriedade intelectual e insumos produtivos: patentes, fertilizantes, sementes.

Para o Brasil, a assinatura representaria um salto nas exportações agrícolas – especialmente carne e soja – e abriria portas para tecnologias europeias. Para a UE, seria uma forma de diversificar fornecedores, reduzir a dependência da China e ganhar acesso a minerais estratégicos da América do Sul.

Quem puxou o freio?

O ponto de ruptura veio da França. O presidente Emmanuel Macron deixou claro que não apoiaria o tratado sem novas salvaguardas para os agricultores franceses, que temem ser sufocados por produtos sul‑americanos mais baratos e por padrões ambientais diferentes. A França, que tem a maior produção agrícola da UE, tornou‑se o principal obstáculo dentro do bloco.

Logo em seguida, a Itália, liderada por Giorgia Meloni, alinhou‑se à França. A primeira‑ministra afirmou que o país poderia apoiar o acordo, mas somente se as preocupações dos agricultores italianos fossem atendidas. Essa aliança franco‑italiana foi o gatilho para que a Comissão Europeia, chefiada por Ursula von der Leyen, decidisse adiar a assinatura.

Como funciona a aprovação na UE?

Na União Europeia, o acordo não depende apenas da Comissão. Ele precisa ser ratificado pelo Conselho Europeu, que exige uma maioria qualificada: ao menos 15 dos 27 países, representando 65% da população da UE. Ou seja, basta que um pequeno grupo – como França, Itália e possivelmente outros países agrícolas – bloqueie o processo para que tudo pare.

Essa regra de maioria qualificada garante que decisões comerciais importantes tenham apoio amplo, mas também dá poder de veto a poucos. No caso do Mercosul‑UE, o risco político está exatamente aí: se a maioria dos países agrícolas não se sentir protegido, o acordo pode ficar parado por anos.

Quem está a favor?

Nem todos os membros da UE estão contra. Alemanha e Espanha, liderados por Friedrich Merz e Pedro Sánchez, defendem o tratado como forma de compensar as tarifas americanas impostas a produtos europeus e de reduzir a dependência da China. Países nórdicos também veem benefícios em termos de acesso a minerais e novos mercados.

Esses governos argumentam que a credibilidade da UE no comércio global está em jogo. Se a UE não avançar, pode perder influência nas negociações com outras potências, como os EUA e a China.

O que isso significa para o Brasil?

Para nós, o adiamento traz um misto de alívio e frustração. Alívio porque ainda temos tempo de pressionar por melhores condições para o agro, mas frustração porque a expectativa de um grande impulso nas exportações foi postergada.

  • Exportadores agrícolas: ainda não terão acesso facilitado ao mercado europeu, o que mantém tarifas e barreiras não‑tarifárias em níveis atuais.
  • Indústrias: setores como automotivo e farmacêutico esperavam redução de custos de insumos e maior competitividade.
  • Investidores: a incerteza pode atrasar projetos de investimento direto estrangeiro, que aguardavam o sinal verde do acordo.

O presidente Lula, ao telefone com Meloni, demonstrou otimismo, mas reconheceu que a pressão dos agricultores italianos cria um “constrangimento político”. Ele acredita que, se houver paciência de algumas semanas, a Itália voltará a apoiar o tratado.

Quais são os próximos passos?

1. Negociações internas na UE: A Comissão deve trabalhar com os governos francês e italiano para definir salvaguardas que atendam aos agricultores, sem comprometer demais os benefícios do acordo.

2. Reunião do Conselho Europeu: Prevista para janeiro, em Paraguai, onde a assinatura oficial será tentada novamente.

3. Ratificação no Brasil: Mesmo que a UE dê o sinal verde, o tratado ainda precisa ser aprovado pelo Congresso brasileiro, que tem sua própria agenda e pressões setoriais.

O que podemos fazer enquanto isso?

Se você é produtor, exportador ou simplesmente acompanha a economia, vale a pena:

  • Monitorar as declarações de Macron e Meloni – elas dão pistas sobre o que pode mudar nas salvaguardas.
  • Ficar atento ao debate no Conselho Europeu – decisões tomadas lá influenciam diretamente o calendário.
  • Participar de associações de classe que pressionam por condições justas no acordo – a voz coletiva ainda tem peso.
  • Explorar mercados alternativos enquanto o acordo não se concretiza – a diversificação sempre reduz riscos.

Conclusão

O adiamento da assinatura do acordo Mercosul‑UE não é apenas mais um atraso burocrático; é um reflexo das tensões entre agricultura e indústria, entre protecionismo e liberalização, dentro de um bloco que tenta se posicionar como líder no comércio global. Para o Brasil, o caminho ainda está aberto, mas depende de como a UE vai equilibrar os interesses dos seus agricultores com a necessidade de fechar um acordo que pode mudar o cenário econômico mundial.

Enquanto isso, seguimos de olho nas negociações, nas próximas decisões em janeiro e, claro, nas oportunidades que surgirem – seja no Paraguai, seja em outro canto do planeta.