Um protesto que acabou em chamas
Na quinta‑feira (18), o centro de Bruxelas virou palco de um dos maiores protestos agrícolas da Europa nos últimos anos. Mais de 7 mil manifestantes, acompanhados por cerca de mil tratores, cercaram o Parlamento Europeu, queimaram pilhas de pneus e lançaram batatas e objetos contra a polícia. O clima era de tensão, mas também de muita frustração – e isso merece ser entendido.
Por que os agricultores decidiram sair das fazendas?
O ponto central da manifestação é o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul – bloco que reúne Argentina, Brasil, Paraguai e Uruguai. O tratado prevê a eliminação ou redução de tarifas de importação e exportação entre os dois blocos. Para os produtores europeus, isso significa concorrência direta com carnes, soja, açúcar e aves sul‑americanas, que chegam a preços mais baixos graças a subsídios e a normas ambientais diferentes.
O que está em jogo?
- Mercado interno: os agricultores temem perder participação nas prateleiras europeias para produtos sul‑americanos.
- Subsídios da PAC: a nova Política Agrícola Comum (PAC) 2028‑2034 pode ter um corte de mais de 20% no orçamento, segundo a Federação Valona de Agricultura.
- Regulamentação ambiental: há dúvidas sobre a eficácia dos mecanismos de controle que a UE pretende aplicar aos produtores do Mercosul.
Como o protesto se transformou em confronto
O que começou como uma marcha pacífica rapidamente escalou. Tratores foram usados como bloqueio, pneus foram empilhados e incendiados, e alguns manifestantes arremessaram pedras e batatas contra os policiais. A polícia belga respondeu com gás lacrimogêneo e canhões de água. Houve ao menos um ferido – um manifestante com lesão na cabeça – e várias janelas quebradas, inclusive a do prédio Station Europe, na Praça de Luxemburgo.
Quem está por trás da mobilização?
Além da Federação Valona de Agricultura (FWA), outros sindicatos agrícolas europeus marcaram presença: a Copa‑Cogeca (principal lobby agrícola da UE), a FNSEA (França) que prometeu levar mais de 10 mil agricultores, e a Confédération Paysanne (terceiro maior sindicato francês). No Brasil, o setor agroexportador observa tudo de perto, já que o acordo pode abrir portas para mais soja e carne bovina no mercado europeu.
O que a política europeia está fazendo?
Os líderes dos 27 países estavam reunidos em Bruxelas para a última cúpula do ano. A decisão sobre a assinatura do acordo era considerada crucial. Após o protesto, Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, informou que o tratado não será assinado no sábado (20). A França, que tem liderado a oposição, ainda mantém a postura de que o acordo “não pode ser assinado”. Por outro lado, Itália, Hungria e Polônia apoiam a assinatura.
Impactos para o Brasil
Para o agronegócio brasileiro, o acordo UE‑Mercosul representa uma oportunidade de expansão. A Europa é um dos maiores destinos de exportação de carne bovina, soja e açúcar do Brasil. Se o tratado avançar, os produtores brasileiros podem ganhar mais espaço nas prateleiras europeias, mas também terão que se adequar a exigências cada vez mais rigorosas de sustentabilidade e rastreabilidade.
O que isso significa para o consumidor
Se o acordo for ratificado, os consumidores europeus podem ver preços mais baixos em carnes e produtos agrícolas importados. Por outro lado, os agricultores locais temem que a competição acabe reduzindo a diversidade de produção regional e pressionando pequenos produtores a fechar.
Como o cenário pode evoluir?
Alguns caminhos possíveis:
- Revisão do acordo: a UE pode renegociar cláusulas sobre normas ambientais e sociais, tentando equilibrar interesses.
- Manutenção da oposição: se países como a França continuarem firmes, a assinatura pode ser adiada indefinidamente.
- Pressão dos agricultores: novos protestos podem surgir em outros países, como Alemanha e Polônia, caso as concessões não sejam feitas.
O que eu, como cidadão, posso fazer?
Entender o que está acontecendo é o primeiro passo. Se você se preocupa com a segurança alimentar, com a sustentabilidade ou com a economia local, vale acompanhar as discussões no Parlamento Europeu, ler análises de especialistas e, se possível, participar de debates públicos. A decisão sobre o acordo UE‑Mercosul não afeta só agricultores; ela tem reflexos na mesa de jantar de toda a Europa e, indiretamente, nos nossos próprios mercados.
Conclusão
O protesto em Bruxelas mostrou que a agricultura não é apenas questão de campo, mas também de política, comércio internacional e meio ambiente. Enquanto a UE pondera sobre assinar ou não o acordo com o Mercosul, os agricultores continuam a lutar por um futuro que lhes garanta estabilidade econômica e respeito às normas que consideram justas. Para nós, que assistimos de longe, o importante é ficar atento às consequências desse debate – porque, no fim das contas, ele pode mudar o preço da carne no supermercado, a disponibilidade de soja nas prateleiras e até a paisagem rural da Europa.



