Nos últimos dias, o clima nas manchetes tem sido de tensão entre Estados Unidos e Venezuela. Se você ainda não percebeu a gravidade da situação, vale a pena entender o que realmente está por trás da ofensiva de Donald Trump contra o governo de Nicolás Maduro.
O pano de fundo: mais que “luta contra drogas”
Trump tem falado abertamente que não descarta uma intervenção militar na Venezuela. A justificativa oficial dos EUA costuma ser o combate ao narcotráfico e a suposta ameaça à segurança regional. Na prática, porém, especialistas apontam para interesses muito mais profundos: petróleo, a presença crescente da China na América Latina e a vontade de reviver a Doutrina Monroe – aquela política de quase dois séculos que dizia que o continente americano era território de influência norte‑americana.
Petrobrás? Não, petróleo venezuelano
A Venezuela tem, segundo a Energy Information Administration (EIA), cerca de 303 bilhões de barris de reservas comprovadas – mais que a Arábia Saudita e o Irã juntos. O problema é que a maior parte desse petróleo é extra‑pesado, o que exige tecnologia avançada e investimento que o país, atolado em sanções, não tem.
- Essas reservas são um prato cheio para refinarias dos EUA, sobretudo as da Costa do Golfo.
- O New York Times revelou que Washington tem negociado secretamente com Caracas focado exatamente nesse recurso.
- Para Trump, garantir acesso ao petróleo venezuelano seria uma forma de baixar o preço da gasolina nos EUA, aliviando o bolso dos americanos.
Já se percebeu o primeiro efeito: navios petroleiros venezuelanos têm sido interceptados, impedidos de atracar ou sair de portos. A Bloomberg noticiou que Caracas está sem capacidade de armazenar o petróleo que ainda consegue produzir, justamente por causa do bloqueio americano.
China: a parceira que incomoda
Antes das sanções americanas, a Venezuela vendia seu petróleo principalmente para os EUA. Hoje, a China é a maior compradora: 68% das exportações de 2023 foram para o gigante asiático, que também concedeu quase US$ 50 bilhões em empréstimos ao longo da última década, usando o petróleo como garantia.
Essa relação tem dois lados:
- Para a Venezuela, é uma forma de driblar o embargo americano e conseguir recursos.
- Para a China, garante influência estratégica na América Latina, algo que Washington vê como uma ameaça direta à sua hegemonia regional.
Como a China se firma como principal parceiro, Trump tem buscado reforçar a presença militar e econômica dos EUA no continente, para impedir que Pequim se aproxime ainda mais de recursos estratégicos como o petróleo venezuelano.
O papel do Brasil e da Argentina
Curiosamente, a escalada de tensão também tem reflexos na política dos nossos vizinhos. O economista André Galhardo destaca que a melhora nas relações de Trump com Lula e com o presidente da Argentina, Javier Milei, está ligada ao interesse americano em países que têm potencial petrolífero – Brasil, com seus 4,3 milhões de barris por dia, e Argentina, que explora a formação de Vaca Muerta.
Mesmo que o Brasil não esteja entre os dez maiores detentores de reservas, ele se tornou o sétimo maior produtor mundial. Isso faz com que Washington veja o país como um aliado natural para equilibrar a influência chinesa na região.
Empresas americanas à caça de novos mercados
Além do petróleo, há um outro ponto de interesse: abrir o mercado venezuelano para companhias dos EUA. A oposição venezuelana, liderada por María Corina Machado, tem mantido conversas com Donald Trump Jr. e defendido a entrada de empresas norte‑americanas no país. A ideia é simples – se o regime de Maduro cair, os EUA poderiam garantir contratos de exploração de recursos, construção de infraestrutura e até venda de tecnologia.
Esse plano se encaixa na estratégia mais ampla de Trump de revitalizar a Política da Porta Aberta (Open Door Policy) do início do século XX, que buscava criar oportunidades para empresas americanas em toda a América Latina, mesmo que isso significasse usar a força militar como último recurso.
Doutrina Monroe revisitada
Em um documento recente da Casa Branca, o governo dos EUA mencionou explicitamente a Doutrina Monroe, lançada em 1823. A proposta é “retomar” seus princípios, usando a América Latina como zona de segurança e prosperidade para Washington.
Na prática, isso significa:
- Manter a região longe da influência de potências europeias – hoje, substituídas pela China.
- Usar a presença militar como ferramenta de pressão, como tem sido feito nas interdições de navios venezuelanos.
- Garantir que recursos estratégicos (petróleo, minerais) permaneçam sob controle ou influência americana.
Para quem acompanha a história, parece um retorno ao passado, mas com a tecnologia e a geopolítica do século XXI. A diferença é que, agora, o “inimigo” não é a Europa, mas a China.
O que isso significa para nós?
Se você pensa que esses movimentos são distantes da sua realidade, pense novamente. A estabilidade da Venezuela tem impacto direto nos preços do petróleo global, nas rotas de comércio e até na segurança dos mares do Caribe, que são usados por navios de carga brasileiros.
Além disso, a disputa entre EUA e China pode se refletir em decisões de investimento no Brasil – desde projetos de exploração offshore até parcerias em energia renovável. Ficar atento a essas dinâmicas ajuda a entender por que, por exemplo, o governo federal tem buscado diversificar suas parcerias e por que algumas empresas brasileiras estão mais cautelosas ao fechar contratos com parceiros norte‑americanos.
Conclusão
Em resumo, a ofensiva de Trump contra a Venezuela não se resume a uma luta contra o narcotráfico. Ela envolve:
- O desejo de garantir acesso ao petróleo venezuelano para reduzir os custos internos nos EUA.
- Uma estratégia de conter a expansão da China na América Latina.
- Um revigoramento da Doutrina Monroe, usando a presença militar como alavanca.
- A abertura de mercado para empresas americanas em setores estratégicos.
Para nós, brasileiros, isso traz oportunidades e desafios: mais atenção ao cenário energético global, a necessidade de equilibrar relações com os EUA e a China, e a importância de acompanhar de perto as decisões de política externa que podem afetar nossa economia.
Fique de olho nas próximas movimentações – seja nos corredores de Washington, nas negociações de Caracas ou nas decisões de Brasília. O futuro da região pode depender de como esses interesses se cruzam.



