Introdução
Quando ouvi pela primeira vez que o ministro cubano do Comércio Exterior, Oscar Pérez‑Oliva, anunciou um pacote de medidas para atrair capital estrangeiro, confesso que fiquei meio cético. Cuba, há décadas, é sinônimo de economia centralizada, racionamento e um embargo que parece não ter fim. Mas a realidade no país está tão crítica que o governo decidiu mudar de estratégia. Neste texto, eu explico o que está acontecendo, por que isso importa para quem acompanha a política internacional e, sobretudo, quais são as oportunidades (e os riscos) para investidores que pensam em colocar dinheiro em Havana.
Por que Cuba chegou a esse ponto?
A crise cubana não é novidade. Desde o colapso do turismo durante a pandemia de Covid‑19, a ilha perdeu uma das principais fontes de divisas. Ao mesmo tempo, o embargo dos Estados Unidos – que bloqueia não só o comércio, mas também o acesso a crédito internacional – continua a apertar. O resultado? apagões que duram horas, racionamento de alimentos e combustível, e uma infraestrutura que parece ter parado no tempo.
Para sobreviver, o governo cubano tem “dolarizado” gradualmente a economia: supermercados, postos de gasolina e até algumas empresas estatais já aceitam dólares ou euros. Essa medida ajudou a gerar alguma liquidez, mas não resolve o problema estrutural de produção insuficiente e dependência de importações. Em 2024, Cuba ainda importava a maior parte dos alimentos e quase todo o combustível que consome.
O que está mudando agora?
Na Feira Internacional de Havana, no fim de novembro, Pérez‑Oliva revelou um conjunto de reformas que pretendem tornar o país mais “amigável” ao capital externo. Os pontos principais são:
- Processos de aprovação mais rápidos e menos burocráticos. Empresas que antes esperavam anos por licenças agora terão prazos mais curtos.
- Flexibilidade na contratação de trabalhadores. A tradicional agência estatal de emprego continuará existindo, mas as empresas poderão contratar diretamente e pagar bônus em dólares.
- Exigência de pagamento em moeda estrangeira para certos bens e serviços. Ainda sem detalhes, mas indica que o governo quer mais dólares entrando no país.
- Novos instrumentos de financiamento. Ainda não revelados, mas sugerem linhas de crédito ou parcerias público‑privadas.
Essas mudanças são, segundo o economista Omar Everleny Pérez Villanueva, da Universidade de Havana, um “passo na direção certa” porque demonstram vontade política. Mas ele alerta que, sem a retirada das sanções norte‑americanas, o investimento ainda será limitado.
O que isso significa para investidores?
Se você já acompanha oportunidades em mercados emergentes, sabe que o fator “acesso a divisas” costuma ser o maior obstáculo. Em Cuba, a nova política cria três caminhos principais:
- Arrendamento de ativos subutilizados. O governo quer que investidores assumam fábricas, hotéis ou fazendas que estão ociosas, invistam nelas e, depois de um período acordado, devolvam ao Estado. Isso pode gerar retornos interessantes, especialmente em setores como turismo e agricultura.
- Parcerias no setor bancário. A abertura do sistema financeiro ao capital estrangeiro pode abrir espaço para bancos internacionais oferecerem serviços de câmbio e crédito, algo que hoje é quase inexistente em Cuba.
- Projetos piloto de produção local. Um exemplo já citado é a empresa vietnamita que está cultivando arroz em Pinar del Río. Se o modelo for bem‑sucedido, outras empresas podem replicar a ideia em áreas como café, açúcar ou mesmo energia renovável.
Mas não se engane: a rentabilidade dependerá de fatores como a estabilidade do regime, a evolução do embargo e a capacidade de lidar com a burocracia ainda presente.
Desafios e riscos que você não pode ignorar
- Sanções dos EUA. Mesmo que Cuba busque investidores de outras regiões, a maioria das grandes multinacionais tem sede nos EUA ou tem relações comerciais com o país. O risco de multas ou restrições é real.
- Incerteza jurídica. O sistema legal cubano ainda é pouco transparente. Contratos podem ser revistos ou alterados, e a proteção de propriedade intelectual é limitada.
- Infraestrutura precária. Falta de energia confiável e logística deficiente podem elevar custos operacionais.
- Risco cambial. Embora o governo queira mais dólares, a moeda oficial (peso cubano) pode sofrer desvalorizações abruptas.
Para mitigar esses riscos, analistas recomendam parcerias com empresas locais já estabelecidas, uso de seguros políticos (quando disponíveis) e, claro, diversificação de portfólio.
Olhar para o futuro: o que pode acontecer nos próximos cinco anos?
É impossível prever com certeza, mas alguns cenários são plausíveis:
- Reforma gradual e atração de investimentos de médio porte. Se o governo cumprir as promessas de simplificação, podemos ver um aumento de 10‑15% no fluxo de capital estrangeiro nos próximos dois anos, principalmente de países asiáticos que buscam produção de baixo custo.
- Pressão internacional para alívio do embargo. Uma melhora nas relações EUA‑Cuba – ainda que parcial – poderia abrir portas para grandes multinacionais americanas, impulsionando setores como energia renovável e telecomunicações.
- Estagnação ou retrocesso. Caso as sanções se intensifiquem ou o governo recue nas reformas, o fluxo de investimento pode secar, deixando o país ainda mais dependente de importações caras.
Para quem acompanha a economia global, a situação cubana se tornou um barômetro de como países com regimes autoritários podem (ou não) adaptar-se ao capitalismo de mercado quando a necessidade apertar.
Conclusão
Em resumo, a abertura econômica de Cuba não é um “milagre” que resolverá a crise da noite para o dia, mas representa um ponto de inflexão importante. Para investidores, há oportunidades reais – principalmente em setores de produção agrícola, turismo e serviços financeiros – mas também riscos que exigem cautela e planejamento.
Se você tem interesse em diversificar seus investimentos em mercados emergentes, vale a pena acompanhar de perto como o governo cubano implementa essas mudanças, quais empresas internacionais já firmam acordos e, claro, como a comunidade internacional reage ao novo cenário. No fim das contas, o que está em jogo não é só dinheiro, mas também a possibilidade de um país historicamente isolado encontrar um caminho mais sustentável para o desenvolvimento.



