Um panorama rápido
Na última quinta‑feira, em Bruxelas, o presidente francês Emmanuel Macron deixou bem claro que a França não vai assinar o tão aguardado acordo comercial entre a União Europeia e o Mercosul se não houver novas salvaguardas para os agricultores. A declaração chegou a poucos dias da reunião do Conselho Europeu, que pode selar o tratado já no sábado, em Foz do Iguaçu, no Brasil.
Por que a França está tão resistente?
Para entender a postura de Macron, é preciso colocar o assunto no contexto dos produtores rurais franceses. Eles temem que a abertura das fronteiras comerciais traga concorrência de produtos sul‑americanos – como carne bovina, aves e açúcar – que, segundo eles, são produzidos com regras ambientais menos rígidas e, portanto, a custos menores.
Essas preocupações não são só retóricas. Nos últimos anos, a França tem registrado protestos de agricultores em várias cidades europeias, inclusive em Bruxelas, onde pneus foram incendiados e confrontos com a polícia foram registrados. A sensação de que “as contas não fecham” é o que impulsiona a pressão sobre o governo.
O que são as salvaguardas que o Parlamento Europeu aprovou?
Em 16 de dezembro, o Parlamento Europeu adotou um conjunto de medidas que funcionam como um “freio” caso o acordo cause desequilíbrios no mercado interno da UE. Entre os principais pontos:
- Se o preço de um produto latino‑americano cair 5 % abaixo do preço equivalente na UE, tarifas podem ser reintroduzidas.
- Se o volume de importações isentas de tarifas ultrapassar 5 % do consumo interno, o bloco pode aplicar medidas corretivas.
Essas regras foram criadas para proteger setores sensíveis, mas a França considera que ainda são insuficientes. Para eles, a ameaça não está só nos preços, mas também no risco de desvirtuar padrões ambientais e de qualidade que a UE tem buscado consolidar.
O papel decisivo da Itália
O acordo ainda precisa da aprovação do Conselho Europeu, que exige maioria qualificada: apoio de pelo menos 15 dos 27 países membros, representando 65 % da população da UE. Aqui entra a Itália, com cerca de 59 milhões de habitantes. Se o país seguir o caminho de Macron e da Polônia, a maioria qualificada pode ser bloqueada.
Até agora, a posição italiana tem sido ambígua. Enquanto o governo de Giorgia Meloni tem mostrado sinais de apoio ao tratado, há pressões internas de grupos agrícolas que temem o mesmo cenário que os franceses. O que a Itália decidir pode, literalmente, definir se o acordo avança ou morre na reunião de sábado.
Além da agricultura: o que está em jogo?
É fácil focar apenas no agro, mas o tratado UE‑Mercosul vai muito além. Ele inclui:
- Indústria e manufatura: redução de tarifas para bens de alta tecnologia e automóveis.
- Serviços: abertura de mercados para empresas europeias de consultoria, finanças e telecomunicações.
- Investimentos: regras mais claras para fluxos de capitais entre os blocos.
- Propriedade intelectual: proteção reforçada para patentes e marcas.
Países como Alemanha, Espanha e Portugal defendem o acordo justamente por esses benefícios econômicos mais amplos. Eles veem a diversificação das relações comerciais como um caminho para reduzir a dependência de mercados tradicionais, como os Estados Unidos e a China.
Impactos para o consumidor brasileiro
Se o acordo for ratificado, o Brasil – que já tem uma das maiores cadeias exportadoras de carne bovina, soja e açúcar do mundo – pode ganhar ainda mais acesso ao mercado europeu. Isso significa potencialmente mais empregos nas áreas de produção e logística, além de maior competitividade para os exportadores.
Por outro lado, há quem argumente que a abertura pode favorecer grandes conglomerados em detrimento de pequenos produtores, tanto na Europa quanto na América Latina. A questão das salvaguardas, portanto, não é apenas um assunto francês; é um ponto de atenção para toda a cadeia produtiva sul‑americana.
O que podemos esperar nos próximos dias?
Com a cúpula de chefes de Estado do Mercosul marcada para o sábado, em Foz do Iguaçu, o clima está tenso. Se a França mantiver sua posição firme e a Itália decidir alinhar‑se com Paris, o acordo provavelmente será adiado ou até mesmo bloqueado. Caso contrário, a assinatura pode acontecer, mas ainda haverá pressão para que a Comissão Europeia implemente mecanismos de monitoramento mais rígidos.
Para quem acompanha de perto a política comercial, vale ficar de olho nas declarações de Ursula von der Leyen, presidente da Comissão Europeia, que deve viajar ao Brasil para ratificar o tratado caso ele seja aprovado no Conselho.
Resumo rápido para quem não tem tempo
- Macron diz que a França não assinará sem novas salvaguardas.
- Parlamento Europeu já aprovou medidas de proteção, mas a França as considera insuficientes.
- Itália é o pivô: seu voto pode garantir ou bloquear a maioria qualificada no Conselho.
- O acordo cobre muito mais que agricultura – inclui indústria, serviços e investimentos.
- Se ratificado, o Brasil pode ganhar ainda mais espaço no mercado europeu, mas há riscos de concentração de poder econômico.
Em suma, o futuro do acordo UE‑Mercosul ainda está em aberto, e a disputa entre agricultores, governos e grandes corporações mostra como a globalização hoje envolve não só números, mas também questões de sustentabilidade, soberania alimentar e justiça social. Continuaremos acompanhando de perto, porque o que acontece em Bruxelas ou em Paris pode reverberar direto nas mesas de jantar de todo o mundo.



