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Acordo UE‑Mercosul: Por que a França virou bode expiatório da sua própria crise agrícola?

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Acordo UE‑Mercosul: Por que a França virou bode expiatório da sua própria crise agrícola?

Se você acompanha as notícias de comércio internacional, provavelmente já ouviu falar do acordo entre a União Europeia e o Mercosul. Para o Brasil, ele representa uma oportunidade de abrir mercados na Europa para soja, carne, café e tantos outros produtos que fazem parte do nosso agronegócio. Mas, enquanto os negociadores brasileiros celebram a perspectiva de mais exportações, em Paris as ruas se enchem de protestos de agricultores que veem o tratado como a última gota em um copo já transbordado de crises.

Um pano de fundo de crises na agricultura francesa

Nos últimos anos, a França tem vivido uma série de episódios que abalam a confiança do campo nacional. Primeiro, a dermatose nodular contagiosa bovina, que obrigou o governo a sacrificar milhares de animais para conter a doença. Em seguida, a gripe aviária que ameaçou o principal polo de produção de patos para foie gras, na região de Landes. Mas essas são apenas as manchetes sanitárias.

Por trás delas, há problemas estruturais: trigo e vinhos sofrem com a concorrência internacional e com as mudanças climáticas; a produção de frutas e legumes perdeu terreno para países vizinhos que têm custos de mão‑de‑obra menores. Em 2025, a França pode registrar, pela primeira vez em 50 anos, um déficit comercial na agricultura – importando mais do que exporta.

Por que o acordo UE‑Mercosul virou alvo?

O ponto central da resistência francesa é a percepção de que os produtores sul‑americanos operam sob regras ambientais e sanitárias menos rigorosas. Quando se fala de carne bovina, aves ou mel, os agricultores franceses temem que a entrada de produtos mais baratos desestabilize o mercado interno, que já luta contra margens apertadas.

Mesmo com as salvaguardas negociadas – limites de importação e mecanismos de tarifação caso os preços latino‑americanos fiquem 5 % abaixo dos europeus – a confiança não volta. O medo não está só nos preços, mas também na possibilidade de que a UE reduza ainda mais a Política Agrícola Comum (PAC). O próximo orçamento (2028‑2034) pode cortar até 20 % dos subsídios, e a França, que recebe cerca de 9 bi de euros por ano, seria a mais atingida.

O que isso significa para o agronegócio brasileiro?

Para nós, a situação francesa tem duas faces. Por um lado, a resistência pode atrasar a assinatura do acordo, o que significa menos oportunidades de exportar a curto prazo. Por outro, a própria crise francesa evidencia a importância de diversificar os mercados. Se a Europa se tornar mais protecionista, o Brasil pode buscar outras portas – Ásia, África ou mesmo o próprio Mercosul interno.

Além disso, o debate francês levanta questões que nós também enfrentamos: competitividade e sustentabilidade. Enquanto nossos produtores investem em tecnologia de ponta, manejo de solo e redução de emissões, a Europa ainda luta para equilibrar subsídios e normas ambientais. Isso cria um cenário onde o Brasil pode se posicionar como fornecedor de produtos de alta qualidade, mas também precisa estar atento às exigências cada vez mais rigorosas dos consumidores europeus.

Prós e contras do acordo para o Brasil

  • Pró: Acesso a um mercado de mais de 447 milhões de consumidores, com tarifas reduzidas ou eliminadas em produtos como soja, carne bovina, café e açúcar.
  • Pró: Fortalecimento da posição do Mercosul nas negociações globais, mostrando que o bloco pode fechar acordos de grande escala.
  • Contra: Exposição a concorrência de produtores europeus que, apesar dos subsídios, podem melhorar sua competitividade com novas tecnologias.
  • Contra: Necessidade de adequar práticas agrícolas às normas sanitárias e ambientais da UE, o que pode implicar custos adicionais para pequenos produtores.

Como a França pode mudar o rumo da negociação?

O futuro do acordo ainda depende de alguns jogadores-chave. A Itália, por exemplo, tem se mostrado indecisa; se decidir apoiar Paris, pode formar, junto com Polônia e Hungria, uma maioria qualificada capaz de bloquear o tratado. Enquanto isso, o Parlamento Europeu aprova medidas de proteção que podem tornar o acordo mais flexível, mas também mais complexo de implementar.

Se a França conseguir adiar a assinatura, pode ganhar tempo para reformular sua política agrícola, talvez reduzindo a dependência de subsídios e investindo em inovação. Por outro lado, um adiamento prolongado pode enfraquecer a coesão do bloco e abrir espaço para que outros acordos bilaterais (por exemplo, entre a UE e países do Sudeste Asiático) ganhem força.

O que podemos fazer enquanto isso?

Para quem está no campo ou acompanha o agronegócio, algumas atitudes são úteis:

  1. Monitorar a agenda política europeia: mudanças na PAC ou nas salvaguardas podem impactar diretamente os requisitos de exportação.
  2. Investir em certificações: selos de sustentabilidade, rastreabilidade e boas práticas agrícolas aumentam a aceitação dos produtos europeus.
  3. Buscar diversificação: não colocar todos os ovos em uma cesta. Explorar mercados alternativos reduz a vulnerabilidade a atrasos ou bloqueios de acordos.
  4. Participar de associações setoriais: elas têm voz nas negociações e podem influenciar políticas públicas tanto no Brasil quanto no exterior.

Conclusão

O acordo UE‑Mercosul ainda está em fase de negociação, mas a resistência francesa já deixou claro que o caminho não será simples. A crise agrícola da França – marcada por doenças animais, queda de exportações e cortes nos subsídios – transformou o tratado em um bode expiatório para problemas internos que vão muito além do comércio internacional.

Para o Brasil, isso significa que devemos estar preparados: aproveitar as oportunidades quando elas surgirem, mas também fortalecer nossa própria competitividade e sustentabilidade. Afinal, o futuro do agronegócio não depende apenas de acordos, mas de como conseguimos inovar, adaptar e atender às exigências de um mercado global cada vez mais exigente.

E você, o que acha desse impasse? Acredita que a França vai conseguir mudar sua política agrícola ou o acordo será assinado mesmo com a oposição? Deixe sua opinião nos comentários!