Radar Fiscal

Acordo Mercosul‑UE: o que muda para o Brasil, a Europa e o seu dia a dia

Compartilhe esse artigo:

WhatsApp
Facebook
Threads
X
Telegram
LinkedIn
Acordo Mercosul‑UE: o que muda para o Brasil, a Europa e o seu dia a dia

Por que essa carta importa?

Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva recebeu uma carta da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, e do presidente do Conselho Europeu, António Costa. O documento reafirma o compromisso da União Europeia (UE) de fechar, ainda em janeiro de 2026, o acordo de livre‑comércio com o Mercosul. Parece burocracia, mas, na prática, pode mexer no preço do seu carro, no molho de tomate que você compra e até nas oportunidades de emprego aqui no Brasil.

Um pouco de história

O tratado Mercosul‑UE tem mais de 25 anos de negociação. Foram três gerações de diplomatas, 30 rodadas de conversas e milhões de horas de debate. O objetivo sempre foi criar uma ponte comercial entre duas das maiores áreas econômicas do planeta: a América do Sul, liderada pelo Brasil, e a Europa, que reúne 27 países. Até agora, o acordo estava travado por questões políticas – principalmente a resistência de alguns países europeus, como a França e a Itália, que temiam que produtos agrícolas sul‑americanos competissem com os seus produtores.

O que está acontecendo agora?

Na cúpula do Mercosul, em Foz do Iguaçu (Paraná), os líderes europeus explicaram que a assinatura prevista para o sábado (20) não pôde acontecer porque ainda faltavam alguns trâmites internos no Conselho Europeu. Eles garantem, porém, que esses processos já estão em fase avançada e que a assinatura será feita no início de janeiro, em data a ser combinada com os países do bloco sul‑americano.

Lula, ao conversar com a imprensa, reforçou que a França, sozinha, não tem poder de barrar o acordo. Ele também citou a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, que havia levantado questões sobre subsídios agrícolas europeus. Mesmo com essas objeções, von der Leyen está confiante de que há maioria qualificada suficiente no Conselho para aprovar o tratado.

Como funciona a aprovação na UE?

  • O Conselho Europeu precisa de maioria qualificada: apoio de ao menos 15 dos 27 países, representando 65 % da população da UE.
  • Não basta maioria simples; os países têm pesos diferentes conforme sua população.
  • Se a maioria for alcançada, a Comissão Europeia pode ratificar o acordo.

Esse detalhe é crucial porque, se alguns países como a França ou a Itália mantiverem a oposição, ainda há risco de o acordo ficar novamente em espera.

O que muda na prática?

O tratado cobre várias áreas, mas vamos focar naquelas que chegam direto ao consumidor:

  • Tarifas reduzidas ou eliminadas: produtos como vinho, queijo e automóveis europeus podem ficar mais baratos no Brasil; por outro lado, carnes, soja e café sul‑americanos podem ganhar presença nos mercados europeus.
  • Padrões regulatórios: haverá maior alinhamento em normas de segurança, rotulagem e meio ambiente, o que pode facilitar a exportação de empresas brasileiras.
  • Investimentos: empresas europeias terão mais facilidade para investir em infraestrutura, tecnologia e energia no Mercosul.

Para o pequeno produtor rural, isso pode significar concorrência mais forte, mas também acesso a novos mercados. Para quem trabalha em indústrias que dependem de insumos importados, a redução de tarifas pode baixar custos de produção.

Impactos regionais: o caso do Paraná

Foz do Iguaçu, no Paraná, foi o palco da última cúpula. O estado já é um corredor de exportação importante, com a fronteira para o Paraguai e a Argentina. Se o acordo avançar, a expectativa é que a região veja um aumento no fluxo de mercadorias, mais investimentos em logística e, possivelmente, novos parques industriais focados em exportação para a Europa.

O que a população pode esperar?

Não vamos virar um mercado livre sem regras. O acordo inclui capítulos sobre proteção ambiental e direitos trabalhistas, que devem garantir que a competitividade não venha à custa de práticas predatórias. Ainda assim, há dúvidas:

  1. Preços: alguns produtos podem ficar mais baratos, outros mais caros, dependendo da concorrência.
  2. Empregos: setores que ganharem acesso a novos mercados podem gerar vagas, enquanto áreas mais vulneráveis à concorrência podem sentir pressão.
  3. Pequenos produtores: precisarão de apoio para se adaptar a padrões europeus de qualidade e sustentabilidade.

Próximos passos

Se tudo correr como previsto, a assinatura oficial acontecerá em janeiro de 2026, possivelmente em Montevidéu, no Paraguai, onde já se fala em um evento de grande repercussão. Depois, cada país da UE precisará ratificar o acordo em seus parlamentos, um processo que pode levar meses.

Enquanto isso, o governo brasileiro tem a missão de dialogar com os parceiros do Mercosul – Argentina, Paraguai, Uruguai e, em breve, Bolívia – para alinhar estratégias e garantir que o bloco como um todo esteja preparado para o novo cenário comercial.

Como você pode se preparar?

Mesmo que o acordo pareça distante, ele já está influenciando decisões de empresas e investidores. Aqui vão algumas dicas práticas:

  • Fique de olho nas notícias: mudanças nas tarifas de produtos que você consome podem aparecer nos jornais em poucos meses.
  • Considere cursos de idiomas: o inglês e o espanhol continuam essenciais para quem quer aproveitar oportunidades de exportação.
  • Explore nichos sustentáveis: produtos com certificação ambiental têm mais chances de se destacar no mercado europeu.
  • Fale com associações de classe: elas costumam oferecer orientação sobre como adaptar sua produção às exigências internacionais.

Conclusão

O acordo Mercosul‑UE está em um ponto de inflexão. A carta de von der Leyen e Costa mostra que a vontade política está lá, mas ainda dependemos de acordos internos na Europa e de um consenso dentro do Mercosul. Para nós, brasileiros, isso pode significar mais opções na prateleira, mais oportunidades de negócio e, quem sabe, um impulso na competitividade do país no cenário global.

Então, da próxima vez que você abrir a geladeira e encontrar um queijo europeu mais barato, lembre‑se: há uma negociação de décadas, milhares de políticos e um acordo que pode mudar a forma como consumimos e produzimos. E, como sempre, o melhor caminho é ficar informado e pronto para aproveitar as oportunidades que surgirem.