Na última sexta‑feira, 19 de dezembro de 2025, a casa de praia do presidente francês Emmanuel Macron, em Le Touquet, virou cenário de um protesto bastante inusitado: agricultores franceses despejaram sacos de esterco, pneus, repolhos e até um caixão com a frase “Não ao Mercosul”. A cena parece saída de um filme, mas tem tudo a ver com uma negociação que envolve a União Europeia, o Mercosul e, claro, o futuro da agricultura no Brasil.
Por que os agricultores escolheram a casa de Macron?
O acordo UE‑Mercosul, fechado em dezembro de 2024, pretende eliminar tarifas entre os dois blocos. Para a França, isso significa que produtos como carne bovina, soja, arroz e mel sul‑americanos podem entrar na Europa sem restrições tarifárias e com regras de produção menos rígidas. Os produtores franceses temem que esses produtos cheguem a preços que eles não conseguem competir.
Ao escolher a residência de verão de Macron – símbolo da elite política francesa – os manifestantes queriam chamar a atenção do presidente diretamente, mostrando que a questão não é apenas econômica, mas também política. O ato foi descrito pelos organizadores como “simbolismo contra a política europeia atual”.
O que está em jogo para o Brasil?
Para nós, brasileiros, o acordo tem duas faces:
- Oportunidade de exportação: a eliminação de tarifas abriria portas para que nossos produtos cheguem a mercados europeus a preços mais competitivos.
- Pressão por padrões mais altos: a UE tem exigido cada vez mais certificações ambientais e sociais. Se o Brasil quiser manter o acesso, precisará adaptar suas cadeias produtivas – o que pode significar custos adicionais para pequenos agricultores.
É fácil ficar assustado ao ver imagens de esterco e pneus na frente de uma mansão, mas o que realmente importa são as negociações de bastidores que podem mudar a forma como nossos alimentos chegam às mesas europeias.
Como a decisão da UE pode afetar o preço dos alimentos aqui no Brasil
Se o acordo for ratificado, a concorrência internacional pode subir, forçando produtores brasileiros a melhorar a produtividade e a qualidade. Isso pode gerar:
- Maior eficiência: investimentos em tecnologia agrícola, como agricultura de precisão, podem reduzir custos e aumentar a produção.
- Pressão sobre pequenos produtores: sem apoio adequado, agricultores familiares podem enfrentar dificuldades para atender às exigências de qualidade e rastreabilidade exigidas pela UE.
- Possível queda de preços internos: um aumento da exportação pode reduzir a oferta doméstica e, paradoxalmente, elevar os preços dos alimentos no mercado interno.
É um cenário de oportunidades e riscos, e cabe ao governo brasileiro criar políticas que aproveitem o primeiro e mitigem o segundo.
O que o adiamento da assinatura significa?
Após a pressão da França – apoiada pela Itália – a Comissão Europeia decidiu adiar a assinatura para janeiro de 2026. Para os agricultores franceses, isso foi um pequeno alívio, mas eles ainda consideram a proposta “insuficiente”. Para nós, o adiamento significa mais tempo para observar como a UE vai ajustar o acordo, especialmente em relação à Política Agrícola Comum (PAC), que está em processo de reforma.
Enquanto isso, o Brasil pode usar esse intervalo para:
- Fortalecer a diplomacia agro‑exportadora, reforçando a importância da sustentabilidade.
- Negociar cláusulas que garantam acesso a mercados, mas também protejam os produtores locais.
- Investir em certificações internacionais que atendam às exigências da UE.
O que podemos aprender com o protesto?
O gesto dos agricultores franceses pode parecer exagerado, mas traz lições valiosas:
- Visibilidade importa: ao escolher um ponto de alto impacto, eles conseguiram chamar a atenção da mídia mundial.
- Mobilização local tem efeito global: uma manifestação em Le Touquet influenciou decisões que afetam negociadores em Foz do Iguaçu.
- Conexão entre política e vida cotidiana: o que acontece em Paris ou Bruxelas tem reflexos diretos nas fazendas de Mato Grosso ou no prato de um consumidor em São Paulo.
Para nós, a lição é que a agricultura não é apenas um setor econômico; é um campo de batalha político onde decisões internacionais podem mudar a realidade de quem planta, colhe e vende.
Como o cidadão brasileiro pode se posicionar?
Mesmo que você não esteja diretamente ligado à produção agrícola, o acordo UE‑Mercosul pode impactar seu bolso, seu prato e até a qualidade ambiental dos produtos que você consome. Aqui vão algumas ações práticas:
- Fique informado: acompanhe as notícias sobre a ratificação do acordo e as discussões na Câmara dos Deputados.
- Exija transparência: pressione políticos a garantir que o Brasil mantenha padrões de sustentabilidade nas exportações.
- Valorize produtores locais: ao comprar alimentos de pequenos agricultores, você ajuda a equilibrar a balança frente à concorrência internacional.
- Participe de debates: eventos, webinars e fóruns sobre comércio internacional são ótimas oportunidades para entender os prós e contras.
Em resumo, o protesto na casa de Macron não é apenas um episódio de “política de espetáculo”. É um sinal de que as decisões comerciais têm consequências reais para quem planta, vende e consome. E, como cidadãos, temos o poder – e a responsabilidade – de acompanhar, questionar e, quando necessário, cobrar nossos representantes.
Olhar para o futuro
Se a assinatura acontecer em janeiro, o próximo passo será a implementação prática: inspeções sanitárias, adequação de normas e, possivelmente, novos subsídios da UE para agricultores europeus. Para o Brasil, o desafio será manter a competitividade sem abrir mão de práticas sustentáveis.
Eu acredito que, com diálogo aberto e políticas bem pensadas, podemos transformar esse momento de tensão em uma oportunidade de modernizar a agricultura brasileira, abrir novos mercados e, ao mesmo tempo, proteger nossos produtores menores. Afinal, a história mostra que quando os agricultores se organizam – seja em Le Touquet, em Bruxelas ou no interior de Minas – eles conseguem fazer barulho. E esse barulho pode, sim, mudar o rumo das negociações internacionais.
E você, o que pensa sobre o acordo UE‑Mercosul? Vai ficar de braços cruzados ou vai acompanhar de perto as discussões? Compartilhe sua opinião nos comentários – a conversa está apenas começando.



