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Por que a França não vai impedir o acordo Mercosul‑UE – e o que isso significa para o Brasil

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Por que a França não vai impedir o acordo Mercosul‑UE – e o que isso significa para o Brasil

Na última sexta‑feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu (Paraná) com uma frase que acabou dando o tom da discussão que vai marcar a política comercial dos próximos meses: “A França, sozinha, não conseguirá barrar o acordo entre o Mercosul e a União Europeia”.

O que está em jogo?

O tratado Mercosul‑UE está em negociação há 25 anos. Quando finalmente for assinado, criará a maior zona de livre‑comércio do planeta, com a eliminação gradual de tarifas sobre milhares de produtos, desde soja e carne bovina até máquinas industriais e serviços digitais. Para o Brasil, que exporta cerca de US$ 30 bilhões anuais para a Europa, a assinatura representa uma oportunidade de ampliar mercados, reduzir custos e ganhar competitividade.

Por que a França se opõe?

O ponto de resistência da França está nos seus agricultores. Eles temem que produtos como carne bovina, frango e soja sul‑americanos, produzidos com padrões ambientais diferentes, inundem o mercado europeu, abaixando os preços e prejudicando a renda dos produtores locais. O presidente Emmanuel Macron tem sido bastante vocal, dizendo que o acordo só avançará se houver “salvaguardas” que protejam a agricultura francesa.

Além disso, a questão simbólica também pesa: a França costuma ser defensora de políticas agrícolas fortes dentro da UE, e aceitar o acordo sem concessões poderia ser visto como um retrocesso.

E a Itália?

Recentemente, a primeira‑ministra Giorgia Meloni trouxe à tona outra camada de resistência. Ela argumenta que o fundo europeu destinado à agricultura está sendo distribuído de forma desfavorável à Itália, o que deixa os produtores italianos inseguros quanto ao impacto de um acordo que poderia aumentar a concorrência. A posição da Itália acabou alinhando‑se à da França, pedindo um adiamento para que sejam discutidas salvaguardas específicas.

Por que a França não tem o poder de bloquear?

O processo de aprovação do acordo dentro da UE não depende de unanimidade. O Conselho Europeu precisa de maioria qualificada: apoio de pelo menos 15 dos 27 países, que representem 65 % da população da UE. Isso significa que, mesmo que a França vote contra, outros membros – Alemanha, Espanha, países nórdicos – podem compensar o voto francês.

O chanceler alemão, Friedrich Merz, e o primeiro‑ministro espanhol, Pedro Sánchez, já deixaram claro que veem no tratado uma forma de reduzir a dependência de cadeias de suprimentos chinesas, garantir acesso a minerais estratégicos e equilibrar as tarifas impostas pelos EUA. Esses países têm motivos econômicos fortes para apoiar o acordo.

Qual o papel de Lula nessa negociação?

Lula afirmou que já conversou com a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que está disposta a assinar o tratado já no início de janeiro. Ele também indicou que a assinatura pode acontecer no Paraguai, durante a presidência de Santiago Peña, o que demonstra a estratégia de usar a diplomacia sul‑americana para avançar o processo.

Para o Brasil, o discurso do presidente tem dois objetivos claros:

  • Mostrar confiança de que o bloco europeu não vai ceder à pressão de um único país.
  • Reforçar a imagem do Brasil como parceiro confiável e disposto a negociar em igualdade de condições.

O que isso significa para o cidadão brasileiro?

Se o acordo for ratificado, os efeitos práticos chegarão ao nosso dia a dia de formas diferentes:

  • Produtos agrícolas mais baratos: A redução de tarifas pode baixar o preço de alimentos importados na Europa, mas também abrir portas para que produtores europeus exportem mais produtos para o Brasil, como laticínios e vinhos.
  • Setor industrial: Indústrias brasileiras de máquinas, automóveis e tecnologia podem ganhar acesso a mercados europeus sem a barreira de tarifas, impulsionando investimentos e geração de empregos.
  • Investimentos estrangeiros: Um ambiente de comércio mais estável atrai investidores que buscam cadeias de produção integradas entre América do Sul e Europa.
  • Questões ambientais: O acordo inclui capítulos sobre padrões regulatórios e sustentabilidade. Isso pode pressionar produtores brasileiros a adotar práticas mais verdes, o que, a longo prazo, pode melhorar a imagem do país no exterior.

Riscos e críticas

Nem tudo são flores. Alguns setores do agronegócio temem que a concorrência europeia em produtos como laticínios e carnes suínas aumente, pressionando margens. Além disso, há preocupação de que o acordo possa limitar políticas públicas de proteção ambiental se houver cláusulas de “liberalização excessiva”.

Do lado europeu, os agricultores franceses e italianos continuam a organizar protestos. Se a pressão popular crescer, governos podem renegociar salvaguardas, o que atrasaria ainda mais o processo.

O futuro próximo

O próximo passo será a votação no Conselho Europeu. Se a maioria qualificada for alcançada, a assinatura deverá acontecer em janeiro, possivelmente em Paris ou Bruxelas, com a presença de representantes do Mercosul. Caso contrário, podemos esperar novos adiamentos, como o de hoje, que foi motivado pela aliança França‑Itália.

Para o Brasil, a estratégia deve ser manter o diálogo aberto com todos os países da UE, oferecendo concessões pontuais que atendam às preocupações agrícolas sem comprometer os benefícios globais do tratado.

Conclusão

Em resumo, a frase de Lula reflete uma realidade prática: a União Europeia é um bloco onde o peso de um único país pode ser mitigado por alianças internas. A França tem influência, mas não tem poder de veto absoluto. O acordo Mercosul‑UE ainda tem caminho a percorrer, mas a tendência é de avançar, impulsionado por interesses econômicos de países como Alemanha e Espanha.

Para nós, brasileiros, isso pode significar mais oportunidades de exportação, investimentos e, quem sabe, um impulso na agenda de sustentabilidade. Fique de olho nas próximas semanas – a assinatura pode acontecer antes que a gente perceba, e o impacto já pode estar se sentindo nas prateleiras dos mercados.