Quando a gente ouve falar que o PIB do Brasil cresceu, costuma imaginar que todo mundo saiu ganhando. Mas a realidade é bem mais fragmentada: enquanto algumas cidades aumentam sua fatia na economia nacional, outras ficam para trás. O último levantamento do IBGE, divulgado em 19 de junho, trouxe exatamente esse panorama para 2023, mostrando que municípios de São Paulo e Rio de Janeiro lideraram as perdas de participação no PIB. Vamos entender o que aconteceu, por que isso importa para o nosso dia a dia e quais lições podemos tirar desse cenário.
O que o IBGE mediu?
O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) publicou o estudo “PIB dos Municípios 2022‑2023”, que analisa a variação da participação de cada um dos 5.570 municípios no Produto Interno Bruto nacional. A métrica usada não é o PIB absoluto, mas a participação percentual de cada município no total do país. Assim, mesmo que a economia de um município cresça em termos absolutos, sua participação pode cair se outras regiões crescerem mais rápido.
Quem ficou para trás?
Os municípios que mais perderam participação foram:
- Maricá (RJ) – recuo de 0,3 ponto percentual (p.p.)
- Niterói (RJ) – queda de 0,2 p.p.
- Saquarema (RJ) – queda de 0,2 p.p.
- Ilhabela (SP) – queda de 0,1 p.p.
- Campos dos Goytacazes (RJ) – queda de 0,1 p.p.
Essas cidades têm algo em comum: dependem fortemente da indústria extrativa, sobretudo de petróleo e gás. Quando os preços internacionais dessas commodities despencaram em 2023, a receita gerada por essas atividades caiu, reduzindo o Valor Adicionado Bruto (VAB) – a medida que indica a riqueza efetivamente criada por cada setor.
Por que a queda dos preços do petróleo afeta o PIB municipal?
O VAB é calculado subtraindo os custos dos insumos (matérias‑primas, energia, serviços) do valor da produção. Mesmo que a produção de petróleo tenha aumentado 9,2% em volume, a queda de 22,7% nos preços fez com que o valor total fosse menor. Como o VAB de cidades como Campos dos Goytacazes, Macaé ou Niterói vem em grande parte da extração de petróleo, a redução de preço drena a contribuição desses municípios ao PIB nacional.
O que isso tem a ver com a gente?
À primeira vista, a variação de alguns pontos percentuais pode parecer insignificante. Mas pense assim: se a participação de um município diminui, isso pode indicar menos investimentos, menos geração de empregos locais e, consequentemente, menor arrecadação de impostos. Para quem mora nessas cidades, isso pode se traduzir em menos vagas de trabalho, menos recursos para saúde e educação e até em menor poder de compra.
Desconcentração vs. concentração econômica
Um dos pontos que o IBGE destacou foi que a tendência de desconcentração – a ideia de que a economia se espalhe por mais municípios – acabou sendo freada em 2023. A participação dos municípios que não são capitais caiu de 72,5% para 71,7%, enquanto a fatia das capitais subiu de 27,5% para 28,3%.
Em outras palavras, as grandes cidades – São Paulo, Brasília, Rio de Janeiro – voltaram a ganhar terreno, principalmente graças à recuperação do setor de serviços. Esse setor costuma estar mais concentrado nas capitais, onde há maior demanda por tecnologia, finanças, saúde avançada e educação superior.
Quem subiu?
Os municípios que mais ganharam participação foram, em sua maioria, capitais ou grandes centros urbanos:
- São Paulo (SP) – +0,36 p.p. (de 9,4% para 9,7% do PIB nacional)
- Brasília (DF) – +0,08 p.p.
- Porto Alegre (RS) – +0,06 p.p.
- Rio de Janeiro (RJ) – +0,05 p.p.
- Belo Horizonte (MG) – +0,05 p.p.
- Manaus (AM) – +0,04 p.p.
O motor desse crescimento foi a retomada do setor de serviços, que inclui desde tecnologia da informação até turismo e saúde. Em São Paulo, por exemplo, as atividades financeiras, de seguros e serviços correlatos foram destaque. Esse tipo de atividade costuma ser menos sensível a flutuações de commodities e mais dependente de consumo interno e de negócios.
O que podemos fazer?
Embora a política econômica nacional seja decisiva, há ações que municípios e cidadãos podem adotar para mitigar os efeitos da dependência de um único setor:
- Diversificar a economia local: incentivar a instalação de empresas de tecnologia, startups ou indústrias de menor impacto de preço de commodities.
- Investir em capacitação: oferecer cursos e treinamentos que preparem a força de trabalho para setores em crescimento, como serviços digitais, saúde e educação.
- Fomentar o turismo sustentável: cidades costeiras como Ilhabela podem explorar o turismo de natureza como alternativa ao petróleo.
- Buscar parcerias público‑privadas: projetos de infraestrutura que atraiam novos negócios e melhorem a conectividade.
Essas iniciativas ajudam a reduzir a vulnerabilidade a choques externos, como a queda dos preços do petróleo.
Um olhar para o futuro
O cenário de 2023 mostra que a economia brasileira ainda está muito concentrada nas capitais e nas regiões que dependem de recursos naturais. Se a tendência de concentração continuar, podemos ver um aumento da desigualdade regional, com cidades menores ficando cada vez mais à margem do crescimento nacional.
Por outro lado, a recuperação dos serviços nas capitais indica que há espaço para um modelo mais orientado ao consumo interno e à inovação. Isso pode abrir portas para políticas de estímulo ao empreendedorismo em cidades menores, criando um círculo virtuoso de geração de renda e empregos.
Resumo rápido
- Maricá, Niterói, Saquarema, Ilhabela e Campos dos Goytacazes foram os municípios que mais perderam participação no PIB em 2023.
- A principal causa foi a queda dos preços internacionais de petróleo e gás, que afetou cidades dependentes da extração.
- Capitais como São Paulo e Brasília ganharam participação graças à recuperação do setor de serviços.
- Desconcentração econômica foi freada: as capitais aumentaram sua fatia no PIB nacional.
- Diversificação setorial e investimento em capacitação são estratégias para reduzir vulnerabilidades.
Em suma, os números do IBGE nos lembram que a saúde da economia não pode ser medida só pelo crescimento total, mas também pela distribuição desse crescimento. Se você mora em uma cidade que depende de petróleo, fique de olho nas oportunidades de diversificação. E se está em uma capital, aproveite a expansão dos serviços para buscar novas carreiras ou abrir negócios. Afinal, entender esses movimentos macroeconômicos pode ser a chave para tomar decisões mais acertadas no seu bolso e na sua vida.



