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Acordo UE‑Mercosul: Por que a Ministra da Itália acha que ainda é cedo para fechar o negócio?

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Acordo UE‑Mercosul: Por que a Ministra da Itália acha que ainda é cedo para fechar o negócio?

Na última quarta‑feira (17), a primeira‑ministra da Itália, Giorgia Meloni, subiu ao plenário do Parlamento italiano e disse que ainda é prematuro assinar o acordo comercial entre a União Europeia (UE) e o Mercosul. A fala dela chegou bem na hora de uma cúpula europeia que pretende, ao menos em teoria, fechar o pacto que está em negociação há mais de duas décadas.

O que está em jogo?

Para quem não acompanha de perto, o Mercosul reúne Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e, mais recentemente, a Bolívia. O bloco tem como objetivo criar um mercado comum na América do Sul, facilitando a circulação de bens, serviços e investimentos entre os países membros.

Do lado europeu, a UE vê no acordo uma oportunidade de abrir novos mercados para seus produtos industriais, ao mesmo tempo em que oferece ao Mercosul acesso a tarifas reduzidas para exportar produtos agrícolas – principalmente carne, soja e açúcar. Em troca, a UE espera que o bloco latino‑americano abra suas portas para bens como automóveis, máquinas e produtos farmacêuticos.

Por que a Meloni diz que ainda é cedo?

Meloni não está sozinha. A própria França, representada pelo presidente Emmanuel Macron, já deixou claro que vai se opor a qualquer avanço que não garanta reciprocidade suficiente para proteger o setor agrícola europeu. A preocupação principal é que, ao reduzir tarifas para produtos do Mercosul, a UE possa acabar prejudicando seus próprios agricultores, que já enfrentam desafios como preços baixos e concorrência internacional.

Em seu discurso, Meloni ressaltou que o acordo precisa incluir garantias claras de que o Mercosul não usará a abertura tarifária como uma forma de “dumping” – vender produtos a preços artificialmente baixos para ganhar participação de mercado. Ela acredita que essas garantias podem ser acertadas no início do próximo ano, mas, por enquanto, ainda faltam detalhes.

O que o Parlamento Europeu já aprovou?

Na terça‑feira (16), o Parlamento Europeu deu um passo importante ao aprovar mecanismos de salvaguarda para importações agrícolas. Em termos simples, esses mecanismos permitem que a UE suspenda temporariamente os benefícios tarifários caso identifique que algum setor agrícola local está sendo prejudicado.

Entretanto, o texto aprovado acabou sendo mais rígido que a proposta original da Comissão Europeia. Agora, os parlamentares terão que negociar um novo texto com o Conselho Europeu – que representa os governos dos 27 países membros – antes de avançar.

Como isso afeta o agro brasileiro?

Para quem tem ligação com o agronegócio, a notícia pode parecer um misto de alívio e preocupação. Por um lado, a possibilidade de acessar o mercado europeu com tarifas menores é um grande incentivo para produtores de soja, carne bovina e café. Por outro, a incerteza sobre as salvaguardas pode gerar medo de que, se o acordo for assinado sem proteções adequadas, a UE imponha medidas antidumping que dificultem as exportações.

  • Benefícios potenciais: aumento das exportações, diversificação de mercados, maior competitividade internacional.
  • Riscos potenciais: barreiras não‑tarifárias, requisitos sanitários mais rigorosos, possíveis retaliações comerciais.

É importante lembrar que o Brasil já tem acordos comerciais com a UE em outros setores, como automóveis e tecnologia. O Mercosul, no entanto, representa um bloco que ainda tem muito a ajustar em termos de normas fitossanitárias e de direitos de propriedade intelectual.

Qual o papel da Itália nesse cenário?

A Itália, como um dos países fundadores da UE, tem peso político considerável nas negociações. A posição de Meloni reflete não só a preocupação com os agricultores italianos, mas também uma estratégia de negociação: ao sinalizar que ainda há questões a serem resolvidas, a Itália pode influenciar o ritmo das discussões e buscar concessões que beneficiem seu próprio setor agroalimentar.

Além disso, a postura italiana pode ser vista como um convite à UE para que apresente um acordo mais equilibrado, que leve em conta as diferenças de desenvolvimento entre os países europeus e os membros do Mercosul.

E o futuro? O que esperar em 2025?

Se tudo correr como Meloni sugere, podemos esperar que as negociações avancem lentamente, com novos textos sendo debatidos ao longo do próximo ano. A visita da presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, ao Brasil no final desta semana será crucial: ela deve assinar o acordo que já está concluído tecnicamente, mas que ainda depende de aprovação final pelos parlamentos.

Para o leitor comum, isso significa que, nos próximos meses, ainda haverá muita discussão na mídia, protestos de agricultores europeus e debates no Congresso brasileiro. Se você tem alguma ligação com exportação ou simplesmente acompanha a economia, vale a pena ficar de olho nas próximas rodadas de negociação.

Como se preparar?

Mesmo que o acordo ainda não esteja assinado, algumas medidas podem ajudar produtores e empresas a se adaptarem:

  1. Monitorar as mudanças regulatórias: acompanhe as atualizações da Comissão Europeia sobre normas sanitárias e de rotulagem.
  2. Investir em certificações de qualidade: produtos com selo de origem e boas práticas agrícolas têm mais chances de superar barreiras não‑tarifárias.
  3. Buscar parcerias locais: alianças com distribuidores europeus podem facilitar a entrada no mercado, mesmo antes da assinatura formal.
  4. Planejar cenários de risco: elabore estratégias caso haja a aplicação de salvaguardas que reduzam a competitividade das exportações.

Conclusão

O acordo UE‑Mercosul ainda está longe de ser um “sim” definitivo. A posição da primeira‑ministra italiana, junto com a resistência francesa, mostra que a Europa ainda tem dúvidas sobre como equilibrar os interesses agrícolas com os benefícios comerciais. Para o Brasil e os demais países do Mercosul, isso significa esperar mais um pouco, mas também ter a oportunidade de aprimorar suas práticas e garantir que, quando o acordo for finalmente assinado, ele traga vantagens reais e sustentáveis.

Eu, como alguém que acompanha de perto as notícias de comércio internacional, vejo esse processo como um teste de paciência e estratégia. Se tudo for bem negociado, o futuro pode trazer um fluxo maior de produtos sul‑americanos para as mesas europeias – e isso, no fim das contas, pode ser bom para consumidores de ambos os lados.