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A frustração da indústria alemã com o atraso do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil

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A frustração da indústria alemã com o atraso do acordo UE‑Mercosul: o que isso significa para o Brasil

Por que a gente ainda fala tanto desse acordo?

Se você acompanha as notícias de economia, já deve ter visto o termo “acordo UE‑Mercosul” aparecer em quase todas as manchetes nas últimas semanas. A novidade agora é que a assinatura foi adiada novamente, e isso deixou a indústria alemã bem irritada. Mas, antes de mergulhar nas queixas dos empresários de Berlim, vale entender por que esse tratado tem tanta importância para o nosso dia a dia.

Um pouco de história

O acordo começou a ser negociado há mais de 25 anos. São quatro países do Mercosul – Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai – que buscam abrir seus mercados para a Europa. Para a União Europeia, seria o maior acordo de redução de tarifas já feito, o que poderia mudar a forma como produtos chegam às prateleiras brasileiras e europeias.

O que a indústria alemã tem a perder (e ganhar)

Associações como o BDI (Federação Alemã de Indústria) e a VDA (Associação da Indústria Automobilística) são as que mais se manifestaram. Elas apontam três pontos principais:

  • Redução de custos: hoje, cerca de 85% das exportações europeias para o Mercosul pagam tarifas que somam cerca de 4 bilhões de euros por ano. Sem essas barreiras, as empresas ganhariam mais competitividade.
  • Diversificação de fornecedores: com a política tarifária dos EUA mais protecionista, a Europa quer menos dependência da China e mais acesso a minerais estratégicos sul‑americanos.
  • Expansão de mercado: estudos da BGA (Associação Comercial) indicam que as exportações da UE poderiam crescer até 39% até 2040 se o acordo for firmado.

Mas nem tudo são flores. França e Itália, por exemplo, temem que a entrada de commodities mais baratas – soja, carne, açúcar – prejudique os agricultores europeus. Essa preocupação já gerou protestos com tratores nas ruas de Bruxelas.

O que o adiamento significa para o Brasil?

Para nós, o atraso tem consequências práticas. Primeiro, mantém altas as tarifas que encarecem produtos importados, como máquinas agrícolas, equipamentos de automação e até alguns insumos químicos. Isso impacta diretamente os custos de produção dos nossos agricultores e das indústrias que dependem desses equipamentos.

Segundo, atrasa a entrada de investimentos europeus. Empresas alemãs, que são grandes compradoras de soja e carne, costumam investir em infraestrutura local (armazéns, ferrovias, portos) quando veem um ambiente de comércio estável.

Terceiro, mantém viva a incerteza política. Enquanto o acordo não for assinado, governos de ambos os lados ficam em posição de “esperar e ver”, o que não ajuda a planejar políticas de longo prazo.

Como isso afeta o consumidor brasileiro?

Você pode estar se perguntando: “E eu, que só quero comprar um carro ou um celular, como isso me atinge?” A resposta está nos preços finais. Tarifas mais altas significam custos maiores para importadores, que repassam parte desse valor para o consumidor. Um acordo livre de tarifas poderia baixar o preço de veículos alemães, por exemplo, ou de peças de reposição.

Além disso, a abertura de mercado pode trazer mais concorrência, incentivando as empresas nacionais a inovarem e melhorarem a qualidade dos seus produtos para não perderem espaço.

O que pode mudar nos próximos meses?

A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, prometeu buscar apoio suficiente dos Estados‑membros para aprovar o acordo. Mas a realidade política da UE é complexa: cada país tem seus próprios interesses setoriais. Alemanha, Espanha e os países nórdicos defendem o tratado, enquanto França e Itália puxam o freio.

Se a UE conseguir um consenso, a assinatura pode acontecer ainda em 2024, o que daria tempo para que os setores econômicos se adaptem. Caso contrário, podemos enfrentar novos adiamentos, como aconteceu recentemente.

O que podemos fazer enquanto isso?

Embora a decisão final esteja nas mãos de políticos europeus, há algumas ações que podemos adotar:

  • Ficar informado: acompanhe as notícias sobre o acordo e entenda como ele pode impactar seu setor.
  • Buscar parcerias locais: empresas que dependem de insumos importados podem explorar fornecedores nacionais ou de outros países que já tenham acordos comerciais.
  • Investir em tecnologia: automatizar processos e melhorar a eficiência pode compensar custos mais altos de importação.
  • Participar de debates: associações de classe e sindicatos têm voz nas discussões. Engajar-se pode ajudar a moldar políticas mais favoráveis.

Conclusão

O adiamento do acordo UE‑Mercosul deixa a indústria alemã frustrada, mas também evidencia como o comércio internacional está entrelaçado com a política interna de cada país. Para o Brasil, o impacto pode ser sentido tanto nos preços dos produtos que consumimos quanto nas oportunidades de exportação e investimento.

Enquanto esperamos um desfecho, o melhor caminho é permanecer atento, adaptar estratégias e, claro, continuar cobrando dos nossos representantes uma posição clara sobre a importância de acordos que favoreçam a competitividade e o desenvolvimento sustentável.