Nos últimos dias, o clima em Brasília tem sido de expectativa e um toque de ansiedade. O presidente Luiz Inácio Lula da Silva saiu à rua – ou melhor, ao gabinete da Unasul em Foz do Iguaçu – para cobrar dois dos principais obstáculos ao tão falado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia: a França e a Itália.
Por que esse acordo importa tanto para o agronegócio?
Se você, como eu, acompanha a pauta agrícola, sabe que o Brasil tem um dos maiores setores do mundo quando o assunto é produção de soja, carne bovina, café e açúcar. O acordo UE‑Mercosul prometia abrir portas para esses produtos, reduzindo tarifas que hoje encarecem a exportação para a Europa.
Mas a porta não está totalmente aberta. A União Europeia aprovou recentemente os chamados salvaguardes, mecanismos que permitem suspender temporariamente os benefícios tarifários caso a UE entenda que seu próprio agro está sendo prejudicado. Esse detalhe já deixa o caminho mais sinuoso.
Lula e a pressão sobre Macron e Meloni
Em tom direto, Lula disse ao presidente francês Emmanuel Macron e à primeira‑ministra italiana Giorgia Meloni que espera que eles assumam a responsabilidade de assinar o acordo no sábado, quando acontecerá a cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, no Paraná.
Ele explicou que a UE está disposta a fechar o pacto, mas que a França tem medo de perder competitividade nos produtos agrícolas. Segundo o presidente brasileiro, “o povo está meio rebelde na França”, mas ele reforçou que Brasil e França não competem nos mesmos nichos: “não competimos com os produtos agrícolas da França, são coisas diferentes, são qualidades diferentes”.
O que está em jogo para o Brasil?
- Exportações mais baratas: A redução ou eliminação de tarifas pode tornar a soja, carne e açúcar brasileiros mais competitivos nos mercados europeus.
- Investimentos estrangeiros: Um acordo sólido costuma atrair mais investimentos em infraestrutura rural, logística e tecnologia.
- Segurança jurídica: Comerciantes e produtores ganham previsibilidade, o que facilita planejamento de longo prazo.
Por outro lado, há quem argumente que a liberalização pode expor produtores menores a uma concorrência mais intensa, principalmente se houver influxo de produtos agrícolas de outros países do Mercosul, como a Argentina.
Quem são os verdadeiros “freios” na UE?
Além da França, Polônia e Hungria já sinalizaram resistência. A Itália, apesar de ter um peso decisivo – porque a aprovação precisa de maioria qualificada (15 países que representem 65 % da população da UE) – também demonstrou cautela, concordando em adiar a votação.
Esses países temem que a abertura do mercado europeu a produtos sul‑americanos possa “inundar” seus próprios agricultores, especialmente na produção de carne e laticínios. O medo não é só econômico; há também uma questão de identidade cultural e de apoio às áreas rurais que ainda dependem de políticas de proteção.
Como funciona o mecanismo de salvaguarda?
Os salvaguardes são, basicamente, cláusulas de “pausa”. Se a UE perceber que um setor interno está sendo prejudicado, pode suspender temporariamente as tarifas reduzidas concedidas ao Mercosul. Isso dá um poder de barganha extra ao Parlamento Europeu, que aprova essas regras, mas também cria incerteza para os exportadores brasileiros.
Na prática, isso significa que, mesmo com o acordo assinado, o Brasil pode enfrentar barreiras não tarifárias ou revisões de tarifas caso haja pressão dos agricultores europeus. Por isso, a negociação dos salvaguardes tem sido um ponto crítico nas mesas de conversa.
Qual o papel de Foz do Iguaçu?
Além de ser a cidade-sede da cúpula, Foz do Iguaçu tem um simbolismo forte: está na fronteira do Mercosul, perto da Argentina e do Paraguai, e é um ponto de conexão entre o Brasil e o resto da América do Sul. O evento, marcado para o dia 20 de junho, será a oportunidade de colocar a assinatura final no acordo, caso os líderes europeus cheguem a um consenso.
Para o agronegócio, isso representa um momento de “ponto de virada”. Se tudo correr bem, podemos esperar um aumento nas exportações nos próximos anos, impulsionado por contratos mais vantajosos e por uma maior confiança dos compradores europeus.
O que eu, como consumidor, devo observar?
Talvez pareça distante, mas o acordo pode impactar o preço do pão, da carne e até do café na sua mesa. Uma maior competitividade dos produtores brasileiros pode reduzir custos de importação, o que, em teoria, se traduz em preços mais baixos para o consumidor final. Por outro lado, se os salvaguardes forem acionados com frequência, isso pode gerar volatilidade nos preços.
Perspectivas para o futuro
Se a assinatura acontecer, o próximo passo será a implementação prática: adequação das normas sanitárias, de origem e de rastreabilidade. Esses detalhes podem levar alguns anos, mas já dão um sinal de que o Brasil está pronto para jogar em um tabuleiro global mais amplo.
Se, ao contrário, a França e a Itália mantiverem a postura de “não, obrigado”, o acordo pode ficar novamente em espera, como tem acontecido nos últimos 26 anos de negociação. Nesse cenário, o agronegócio brasileiro teria que buscar outros mercados – como a Ásia – para compensar a perda de potencial europeu.
Minha conclusão pessoal
Eu vejo esse embate como um reflexo da complexidade das relações comerciais modernas. Não se trata apenas de “abrir mercado” ou “fechar portas”. É sobre equilibrar interesses de produtores de diferentes continentes, proteger empregos locais e ainda garantir que os consumidores tenham acesso a produtos de qualidade a preços justos.
O que me deixa otimista é a disposição do presidente Lula em dialogar diretamente com os líderes europeus, mostrando que o Brasil tem argumentos sólidos e que está disposto a ceder – mas sem abrir mão de sua dignidade agrícola. Se essa postura gerar confiança, talvez vejamos um acordo que beneficie todos, sem que ninguém se sinta “rebelde”.
Fique de olho nas próximas semanas. A assinatura pode acontecer já no fim de junho, e o que vier depois vai definir, em grande parte, o futuro do nosso agronegócio nos próximos 10 a 20 anos.



