Quando o Salão do Automóvel de São Paulo voltou a acontecer depois de sete anos de pausa, a expectativa era que todas as grandes montadoras marcassem presença. Mas, ao contrário do que muitos imaginavam, a Volkswagen decidiu ficar de fora. Em entrevista exclusiva ao g1 Carros, o presidente da Volkswagen do Brasil, Ciro Possobom, explicou os motivos e ainda deu pistas sobre o que pode mudar o cenário em 2027.
O que pesou na decisão de não participar?
Para o executivo, a fórmula do evento não entregou a “força” que ele espera de um salão de grande porte. Dois fatores foram citados:
- Formato fechado e estandes pequenos: o tradicional “galpão” com cada marca isolada não agrada ao público, que prefere experiências mais abertas, como as que a Volkswagen tem visto em feiras europeias.
- Ausência de concorrentes de peso: marcas como Audi, BMW, Mercedes, Porsche e outras também deixaram o salão vazio. Sem a presença dessas gigantes, o evento perde o efeito de atração que justifica o investimento de grandes lançamentos.
“Salão forte, para mim, é com presença de todas as marcas. Tiveram marcas importantes lá, mas muita gente ficou de fora”, disse Possobom.
Um retorno possível em 2027?
O presidente deixou claro que a decisão não é definitiva. Se o Salão conseguir reunir um número maior de participantes e adotar um formato mais inovador, a Volkswagen pode reconsiderar sua ausência para a edição de 2027.
Ele comparou a situação com eventos que a empresa tem participado na Europa, onde os stands são mais integrados ao ambiente urbano, permitindo que o público circule livremente e interaja com os carros de forma mais dinâmica.
O que está acontecendo com o mercado brasileiro?
Além da questão do salão, Possobom aproveitou a entrevista para comentar tendências que afetam diretamente os consumidores:
1. A preferência por SUVs
Desde 2020, os SUVs dominam as vendas no Brasil, representando 54 % dos veículos emplacados, enquanto os hatches ficam com 24,6 %. A Volkswagen oferece seis SUVs (Tera, Nivus, T‑Cross, Taos, Tiguan e ID.4) contra apenas dois hatches (Polo e Golf GTI). Mesmo assim, o executivo garante que o hatch ainda tem espaço e importância no portfólio.
2. A eletrificação ainda engatinha
Hoje, os únicos modelos eletrificados da VW no Brasil são o ID.4 e o ID.Buzz, disponíveis apenas por assinatura. A estratégia de eletrificar modelos como o Tera (cerca de R$ 120 mil) poderia elevar o preço em até R$ 40 mil, algo que a empresa considera arriscado para o consumidor médio.
Para 2026, a Volkswagen prometeu que todos os lançamentos terão ao menos uma versão eletrificada, mas a prioridade será em híbridos leves e plug‑in hybrids, que se encaixam melhor no perfil de quem faz 13 mil a 15 mil km por ano.
3. Fatores que poderiam acelerar o mercado
Possobom apontou três elementos que, se melhorados, poderiam fazer o setor crescer mais rápido:
- Juros mais baixos: a taxa Selic está em 15 % e, se cair para cerca de 12 % como projeta o Boletim Focus, o financiamento de veículos ficaria mais barato.
- Maior produção nacional: aumentar a capacidade de fábricas brasileiras reduziria custos e deixaria os preços mais competitivos.
- Regulamentação mais flexível: normas ambientais como o PL 8 elevam custos de produção; ajustes poderiam aliviar o preço final ao consumidor.
O que isso significa para você, leitor?
Se você está pensando em trocar de carro nos próximos anos, vale ficar de olho em alguns pontos que o presidente da Volkswagen destacou:
- Escolha entre SUV e hatch: os SUVs são mais populares, mas os hatches ainda oferecem consumo mais econômico e são ideais para quem roda muito na cidade.
- Planeje a eletrificação: se a ideia é ter um carro mais sustentável, talvez seja melhor aguardar os lançamentos de 2026, quando a VW garantirá versões eletrificadas em todos os modelos.
- Acompanhe as taxas de juros: uma redução da Selic pode tornar o financiamento muito mais atraente, diminuindo o custo total do veículo.
- Observe o mercado de usados: com a produção nacional em expansão, pode haver mais oferta de veículos seminovos com boa procedência e preço justo.
Conclusão
O Salão do Automóvel de São Paulo ainda tem um longo caminho para se tornar o evento que a Volkswagen (e outras marcas) consideram “forte”. Enquanto isso, a montadora foca em estratégias que vão além de feiras: inovação nos formatos de apresentação, expansão da linha de SUVs, e um plano cauteloso de eletrificação que respeita o poder de compra do brasileiro.
Se você acompanha o setor, vale acompanhar as próximas edições do salão, as mudanças nas taxas de juros e os anúncios de novos modelos híbridos. Quem sabe, em 2027, a Volkswagen volte ao palco paulistano com um stand que realmente valha a visita de quem ama carros.



