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Copasa dispara mais de 100%: o que a possível privatização significa para Minas e para o seu bolso

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Copasa dispara mais de 100%: o que a possível privatização significa para Minas e para o seu bolso

Introdução: por que todo mundo está falando da Copasa?

Se você acompanha o mercado de ações ou, de forma mais simples, presta atenção nas contas de água que chegam todo mês, já deve ter notado um burburinho incomum nos últimos dias. As ações da Copasa (CSMG3) subiram mais de 100% em 2025, um salto que deixa investidores, políticos e consumidores curiosos. O que está por trás desse movimento? A resposta principal é a aprovação, na Assembleia Legislativa de Minas Gerais, de um projeto de lei que abre caminho para a privatização da companhia de saneamento.

Um panorama rápido da Copasa

A Copasa, ou Companhia de Saneamento de Minas Gerais, nasce em 1963 como uma estatal responsável por levar água potável e coletar esgoto em grande parte do estado. Hoje, a empresa atende 637 dos 853 municípios mineiros – isso representa cerca de 75% da população estadual – e opera também a Copanor, subsidiária que cobre as regiões Norte e Nordeste de Minas. Em números de 2024, a Copasa registrou lucro líquido de R$ 1,3 bilhão; no primeiro trimestre de 2025, o lucro acumulado até setembro chegou a R$ 1,07 bilhão.

Do ponto de vista operacional, a empresa tem metas ambiciosas: cobertura de água acima de 99% (já atingida) e cobertura de esgoto em 78,4%, com objetivo de chegar a 90% até 2033, conforme o Novo Marco do Saneamento. Para alcançar esses números, a Copasa estima a necessidade de investir R$ 16,9 bilhões até 2029.

Por que as ações subiram tanto?

Em 2 de janeiro, as ações da Copasa fechavam o pregão a R$ 20,53. Em 18 de janeiro, após a aprovação do PL que autoriza a desestatização, elas fecharam a R$ 42,91. Essa valorização de 109% em menos de três semanas não é um fenômeno aleatório. O mercado interpreta a possibilidade de privatização como um gatilho para:

  • Injeção de capital privado: investidores institucionais podem comprar ações a preços atrativos, trazendo recursos para a modernização da infraestrutura.
  • Reestruturação de gestão: empresas privadas tendem a adotar práticas de eficiência operacional, redução de perdas (atualmente 37% nas distribuições) e foco em resultados.
  • Possível valorização futura: se a Copasa for vendida total ou parcialmente, os acionistas atuais – incluindo o Estado, que detém 50,03% – podem receber prêmios de compra.

Essas expectativas criam um efeito de bola de neve: mais investidores compram, o preço sobe, atrai ainda mais compradores. Até aqui, tudo parece um clássico caso de “boom” de ações ligado a um evento regulatório.

O que exatamente está sendo proposto?

O projeto de lei aprovado pela ALMG (Assembleia Legislativa de Minas Gerais) prevê duas formas principais de desestatização:

  1. Alienação total ou parcial: o Estado vende sua participação para um comprador privado, geralmente por meio de leilão. Essa é a forma mais direta de privatização.
  2. Aumento de capital: a empresa emite novas ações que são subscritas por investidores privados, diluindo a participação estatal sem que haja uma venda direta das ações já existentes.

Mesmo que o Estado perca o controle acionário, ele manterá uma “golden share” – uma ação preferencial com direito a veto em decisões estratégicas como mudança de nome, sede ou limites de voto. Essa ferramenta é usada em outros países para garantir que o interesse público não seja totalmente apagado.

O ponto de vista do governo

O governador Romeu Zema, do Novo, defende a privatização como solução para três grandes desafios:

  • Modernização da infraestrutura: a Copasa precisa de investimentos de bilhões de reais para alcançar as metas de esgoto e reduzir perdas. O setor privado tem acesso a capital de longo prazo e expertise em gestão de ativos.
  • Atração de investidores: ao transformar a Copasa em “corporation”, o estado abre portas para fundos de investimento, bancos e até empresas estrangeiras que veem no saneamento um setor de crescimento estável.
  • Pagamento da dívida estadual: Minas Gerais tem uma dívida com a União de cerca de R$ 180 bilhões. A venda de parte da Copasa poderia gerar recursos imediatos para aliviar esse débito.

Entretanto, ainda não há um cronograma definido. O PL precisa da sanção do governador e, depois, de um processo de licitação que pode levar meses – ou até anos – dependendo de recursos judiciais e da reação da população.

Impactos para o consumidor

Para quem paga a conta de água, a privatização pode trazer mudanças tangíveis, tanto positivas quanto negativas. Vamos analisar os dois lados:

Possíveis benefícios

  • Melhoria na qualidade do serviço: empresas privadas costumam investir em tecnologia de medição inteligente, redução de vazamentos e tratamento de água mais avançado.
  • Redução de perdas: a Copasa tem um índice de perdas de 37,3% – ainda alto. A gestão privada pode focar em programas de detecção de vazamentos e substituição de tubulações antigas.
  • Expansão do saneamento: com capital novo, a empresa pode acelerar a construção de estações de tratamento de esgoto, aproximando Minas das metas de 90% de cobertura.

Possíveis riscos

  • Aumento de tarifas: a lógica de lucro pode levar a reajustes de preço, principalmente se a empresa buscar retorno rápido aos acionistas.
  • Desigualdade de investimento: áreas menos rentáveis – como pequenos municípios ou regiões rurais – podem receber menos atenção, já que o foco tende a ser onde há maior retorno econômico.
  • Perda de controle público: decisões estratégicas podem ficar nas mãos de investidores que não têm a mesma responsabilidade social que o Estado.

É importante lembrar que a “golden share” pode limitar alguns desses riscos, mas sua efetividade depende de como o governo a utilizar.

O que dizem os especialistas?

Economistas e analistas de mercado têm opiniões divergentes. Alguns argumentos recorrentes:

  • Eficiência operacional: estudos internacionais mostram que empresas privatizadas tendem a ter custos operacionais menores e maior produtividade.
  • Investimento em infraestrutura: o setor de saneamento no Brasil tem um déficit de cerca de R$ 300 bilhões. A participação privada pode acelerar a execução de obras.
  • Regulação forte: a privatização só funciona bem quando há um órgão regulador forte, capaz de impor limites de preço e garantir padrões de qualidade. No caso de Minas, a Agência Reguladora de Saneamento (ARSE) ainda está em fase de consolidação.

Por outro lado, críticos apontam que a experiência brasileira com privatizações – como a da Telebras e da Eletrobras – trouxe resultados mistos, com casos de falhas de governança e aumento de tarifas sem a melhoria esperada nos serviços.

Como isso afeta os investidores?

Para quem já possui ações da Copasa, o salto de preço é uma ótima notícia no curto prazo. No entanto, a volatilidade pode aumentar à medida que o processo de privatização avança e surgem dúvidas sobre a estrutura final da transação.

Alguns pontos que os investidores devem observar:

  • Calendário regulatório: a necessidade de aprovação do governador, a definição de critérios de leilão e a eventual participação de agências reguladoras.
  • Preço de venda: se a estatal for vendida por um valor superior ao valor de mercado atual, os acionistas podem receber um prêmio significativo.
  • Estrutura de governança pós-privatização: a presença de um conselho de administração independente e a transparência nas decisões são cruciais para manter a confiança dos investidores.

Além disso, fundos de infraestrutura, que buscam ativos de longo prazo com fluxo de caixa estável, podem se interessar pela Copasa, aumentando a demanda por suas ações.

Comparativo: privatização de saneamento no Brasil e no mundo

O Brasil tem avançado no Novo Marco do Saneamento (Lei nº 14.026/2020), que estabelece metas de universalização até 2033. Muitos estados ainda mantêm companhias estatais, mas alguns já abriram capital ou venderam parte das ações. Exemplos:

  • Sabesp (São Paulo): possui ações negociadas na B3 desde 1999, mas o controle ainda é majoritariamente público. A empresa tem mostrado boa performance, mas também enfrenta críticas sobre tarifas.
  • Companhia de Saneamento de Alagoas (Casal): foi privatizada em 2014, resultando em investimentos significativos, porém com aumentos de tarifa que geraram protestos.
  • Água de Portugal (Águas de Portugal): exemplo europeu de concessão de longo prazo, onde o setor privado opera com metas de desempenho claras e regulação rígida.

Esses casos mostram que a privatização pode ser bem-sucedida quando há equilíbrio entre lucro e responsabilidade social, apoiado por um marco regulatório sólido.

O que podemos esperar nos próximos meses?

Embora ainda falte a sanção do governador, alguns cenários são prováveis:

  1. Leilão ou aumento de capital: o governo definirá se venderá ações existentes ou emitirá novas. O leilão costuma gerar maior receita imediata, enquanto o aumento de capital pode diluir a participação estatal ao longo do tempo.
  2. Reação do mercado: se o leilão for bem estruturado, poderemos ver ainda mais alta nas ações, atraindo investidores estrangeiros.
  3. Debate público: sindicatos de trabalhadores, associações de consumidores e partidos políticos provavelmente vão intensificar a discussão, principalmente sobre tarifas e manutenção de empregos.
  4. Reforço regulatório: a ARSE pode receber mais recursos e autonomia para garantir que a prestação de serviços não seja comprometida.

Para quem acompanha o mercado ou se preocupa com a qualidade da água em casa, vale ficar de olho nesses desenvolvimentos.

Conclusão: um futuro incerto, mas cheio de oportunidades

A Copasa está no centro de uma encruzilhada que mistura política, economia e questões básicas de qualidade de vida. O salto de mais de 100% nas ações reflete a expectativa de que a privatização traga capital, eficiência e, potencialmente, melhorias nos serviços de água e esgoto. Ao mesmo tempo, há riscos reais de aumento de tarifas, perda de controle público e desigualdade de investimentos.

Se você é investidor, acompanhe os próximos passos do governo e da agência reguladora – a decisão final pode gerar lucros rápidos, mas também exige cautela diante da volatilidade. Se você é consumidor, participe das discussões públicas, exija transparência e cobre que, independentemente do modelo de gestão, o direito à água potável e ao saneamento básico seja garantido a todos.

Em resumo, a Copasa pode se tornar um exemplo de como o Brasil lida com a transição de serviços essenciais para o setor privado. O que acontecerá nos próximos meses pode definir não só o futuro da empresa, mas também o modelo de saneamento em todo o país.

Fique atento, informe-se e, se possível, participe das audiências públicas – a decisão que afeta a água que sai da torneira pode estar mais próxima do que imaginamos.