Quando a Latam anunciou um bônus de R$ 160 mil para comandantes e R$ 80 mil para copilotos, a notícia rapidamente virou assunto nos corredores das escolas de aviação, nos fóruns de profissionais da área e, claro, nas redes sociais. Não é todo dia que vemos uma companhia aérea oferecendo cifras que chegam a cinco dígitos apenas para que alguém aceite uma vaga. Mas por que a Latam está disposta a pagar tanto? O que isso significa para quem sonha em pilotar um avião e, sobretudo, como esse movimento se encaixa no panorama global de escassez de pilotos?
O contexto: uma frota nova e a necessidade de tripulações prontas
A decisão da Latam está atrelada a um investimento de longo prazo: a compra de até 74 aeronaves Embraer E195‑E2. Destas, 24 já foram firmadas e as demais são opções que podem ser acionadas conforme a demanda. As entregas começam a acontecer no segundo semestre de 2026 e, para operar esses jatos, a companhia precisa de pilotos e copilotos que já estejam familiarizados com a família E‑Jets.
Mas há um detalhe importante: a Latam não pretende simplesmente transferir seus pilotos atuais para o novo modelo. Isso seria considerado um “rebaixamento de categoria”, pois o E195‑E2 tem capacidade menor que alguns dos aviões que já estão na frota da empresa (como o Airbus A330 ou o Boeing 787). Portanto, a estratégia é captar profissionais que já têm experiência em jatos de médio porte – e, para isso, a empresa está disposta a abrir o bolso.
Como funciona o bônus e quem pode concorrer?
O edital, aberto em 15 de outubro, permite inscrições até 4 de janeiro de 2026. Os aprovados são admitidos a partir de fevereiro, passam por um treinamento específico para o E195‑E2 e recebem o bônus como pagamento único, como forma de incentivo à contratação. Os requisitos são bem rigorosos:
- Comandantes: mínimo de 5 mil horas de voo em linhas aéreas regulares, com ao menos 3 mil horas em jatos; 500 horas como piloto em comando em aeronaves similares ou maiores que o E2; certificação ICAO nível 4 ou superior, entre outros.
- Copilotos: no mínimo 500 horas totais de voo, licença de piloto comercial, habilitações IFR e MLTE, certificação ICAO nível 4, entre outros requisitos.
Além das exigências técnicas, a Latam valoriza diferenciais como visto americano, curso superior completo e experiência recente com a família E‑Jets.
Por que a escassez de pilotos está tão crítica?
Não é coincidência que a Latam esteja oferecendo esses valores agora. A escassez de pilotos é um fenômeno global, e o Brasil não está imune. Vários fatores convergem:
- Aposentadorias em massa: a geração de pilotos que se aposentou nos últimos anos deixa lacunas que a formação de novos profissionais ainda não conseguiu preencher.
- Interrupções na formação: a pandemia de Covid‑19 parou muitas escolas de aviação, atrasou a obtenção de horas de voo e reduziu a oferta de vagas.
- Custo da formação: para se tornar piloto no Brasil, é comum gastar entre R$ 200 mil e R$ 400 mil em cursos, simuladores, licenças e horas de voo. Esse investimento alto impede que muitos candidatos deem o próximo passo.
- Demanda crescente: o tráfego aéreo volta a crescer, sobretudo nas rotas de lazer e turismo interno, exigindo mais aeronaves e, consequentemente, mais tripulações.
Um levantamento da plataforma Resume.io mostrou que “piloto de avião” foi a profissão mais buscada no mundo em 2024, com mais de 1,3 milhão de buscas. No Brasil, o salário médio varia entre R$ 5 mil e R$ 13 mil, dependendo da experiência e da companhia. Apesar da remuneração atrativa, o caminho até a cabine de comando ainda é longo e caro.
O que a oferta da Latam revela sobre a competição por talentos
Além de atrair novos profissionais, o bônus de R$ 160 mil pode ser visto como uma arma para roubar talentos de concorrentes. A Azul, por exemplo, opera uma frota grande de Embraer e tem pilotos experientes que já conhecem bem o tipo de aeronave que a Latam quer colocar em operação. Se a Latam conseguir migrar esses profissionais, ganhará não só mão‑de‑obra, mas também know‑how sobre rotas regionais, manutenção e operação de E‑Jets.
Entretanto, a migração não é simples. Existem questões contratuais, acordos sindicais e a própria cultura corporativa. Um piloto que deixa a Azul pode enfrentar um período de adaptação, além de possíveis restrições de não concorrência. Ainda assim, o tamanho do bônus pode ser suficiente para superar essas barreiras.
Impactos no preço das passagens e na experiência do passageiro
Um ponto que costuma gerar preocupação entre os consumidores é: “esse bônus vai subir o preço da minha passagem?”
Na prática, o custo adicional de R$ 160 mil por piloto será diluído ao longo de vários anos de serviço. Se considerarmos um comandante que trabalhe 20 anos na empresa, o custo anual do bônus seria de cerca de R$ 8 mil, o que representa menos de 1% do salário anual médio de um piloto experiente. Ainda assim, as companhias podem repassar parte desses custos ao preço final das passagens, especialmente em rotas de alta demanda.
Por outro lado, a presença de pilotos bem treinados e familiarizados com a nova frota pode melhorar a pontualidade, a segurança e a qualidade do serviço, fatores que também influenciam a decisão de compra dos viajantes.
Perspectivas para quem está estudando aviação
Se você está cursando escola de aviação ou ainda pensa em iniciar a jornada, a notícia traz alguns sinais importantes:
- Valorize a especialização em E‑Jets: as companhias que operam Embraer E‑Jets (Latam, Azul, GOL) tendem a oferecer mais oportunidades para quem tem experiência nesses tipos.
- Invista em certificações internacionais: ter visto americano, certificação ICAO nível 4 ou superior e habilitações IFR pode ser o diferencial que coloca seu currículo na frente.
- Planeje financeiramente: apesar do alto custo da formação, existem linhas de crédito, bolsas de estudo e programas de parceria com companhias que podem reduzir o investimento inicial.
- Fique atento a processos seletivos: a Latam abre vagas até 4 de janeiro de 2026, mas outras companhias podem lançar editais semelhantes nos próximos meses.
Além disso, a tendência de oferecer bônus de contratação deve se intensificar. Se a escassez de pilotos permanecer, veremos mais companhias apostando em incentivos financeiros, benefícios como plano de saúde premium, programas de bem‑estar e até ações de participação nos lucros.
Desafios regulatórios e a discussão sobre a idade de aposentadoria
Alguns especialistas defendem a elevação da idade limite de aposentadoria de 65 para 67 anos, como forma de ampliar a disponibilidade de pilotos experientes. Essa proposta, no entanto, enfrenta resistência de sindicatos que temem sobrecarga de trabalho e questões de segurança. Enquanto o debate não se resolve, a solução de curto prazo continua sendo a atração de novos talentos por meio de bônus e salários competitivos.
O futuro da aviação no Brasil: mais destinos, mais conexões
Com a frota de E195‑E2, a Latam pretende abrir até 35 novos destinos, ampliando a malha aérea que já cobre 160 rotas. Isso significa mais oportunidades de voo para passageiros e, claro, mais vagas para tripulantes. A expansão da malha também pode gerar efeitos positivos na economia regional, estimulando turismo, negócios e geração de empregos em aeroportos menores.
Em resumo, o bônus de R$ 160 mil da Latam não é apenas um número chamativo; ele é o reflexo de uma estratégia mais ampla de crescimento, de competição por talentos e de adaptação a um mercado que clama por mais pilotos. Para quem está no início da carreira, essa pode ser a janela de oportunidade que você esperava. Para o setor, é um sinal de que a guerra por pilotos está longe de terminar, e que os salários e benefícios vão continuar subindo nos próximos anos.
Conclusão: vale a pena?
Se eu fosse um piloto experiente com mais de 5 mil horas de voo, o bônus de R$ 160 mil seria, sem dúvida, um incentivo forte para considerar a mudança. Mas, como toda decisão, é preciso pesar prós e contras: a estabilidade de uma grande companhia, a perspectiva de trabalhar com uma frota moderna e a possibilidade de crescimento de carreira contra a adaptação a uma nova cultura corporativa e a eventual pressão por resultados financeiros.
Para quem ainda está estudando, a mensagem principal é clara: o mercado está faminto por profissionais qualificados e está disposto a pagar por isso. Portanto, invista em sua formação, busque certificações que agreguem valor e fique de olho nos editais que surgem. O céu pode estar mais perto do que você imagina.
Se você tem dúvidas, comentários ou quer compartilhar sua experiência no mundo da aviação, deixe seu comentário abaixo. Vamos conversar sobre como essas mudanças podem impactar a sua trajetória profissional.



