Na última semana, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um apelo direto a Emmanuel Macron, da França, e a Giorgia Meloni, da Itália, para que assinassem o tão aguardado acordo comercial entre o Mercosul e a União Europeia. A mensagem foi clara: “Assumam a responsabilidade”. Mas, além da retórica política, o que realmente está em jogo para o nosso agronegócio? E como isso pode mudar a vida de quem trabalha no campo ou depende de exportações agrícolas?
Um acordo que vem de 26 anos de negociação
O pacto UE‑Mercosul não é novidade. As conversas começaram em 1999, mas só agora chegamos a um ponto em que o Parlamento Europeu aprovou os mecanismos de salvaguarda para as importações agrícolas. Esses mecanismos permitem que a UE suspenda temporariamente os benefícios tarifários caso perceba que algum setor do agro europeu está sendo prejudicado.
Para o Brasil, que é um dos maiores produtores de soja, carne bovina, açúcar e café do mundo, o acordo representa a chance de abrir mercados europeus a preços mais competitivos, reduzindo tarifas que hoje encarecem nossos produtos. Em troca, a UE quer garantir que seus agricultores não sejam “inundados” por produtos sul‑americanos mais baratos.
Por que França e Itália são os principais obstáculos?
Quando falamos de resistência dentro da UE, a França aparece como a líder. Os agricultores franceses temem perder mercado para a carne bovina argentina ou a soja brasileira, que são mais baratas graças a custos de produção menores. Macron, segundo relatos, está preocupado com a reação dos eleitores rurais, que estão “meio rebeldes”, como Lula descreveu.
A Itália, sob a liderança de Meloni, também tem mostrado cautela. Embora o país seja menos dependente de produtos agrícolas do Mercosul, o governo italiano costuma alinhar suas posições com a França em questões de política agrícola comum.
O que muda na prática para o agro brasileiro?
- Tarifas menores: Produtos como carne bovina, frango, suco de laranja e açúcar podem ganhar acesso ao mercado europeu com tarifas reduzidas ou zeradas.
- Maior previsibilidade: Um acordo firmado traz segurança jurídica para produtores que planejam investimentos de longo prazo, como novas plantações ou expansão de frigoríficos.
- Concorrência mais acirrada: Se a UE mantiver as salvaguardas, alguns produtos podem enfrentar barreiras temporárias. Isso pode incentivar o Brasil a melhorar qualidade e rastreabilidade.
- Benefícios para o consumidor: Produtos brasileiros mais baratos podem chegar às prateleiras europeias, aumentando a demanda e, indiretamente, estimulando a produção nacional.
O papel de Foz do Iguaçu e do Paraná
O próximo passo do processo será a assinatura do acordo em Foz do Iguaçu, no Paraná, no dia 20 de outubro. Essa cidade, que faz fronteira com a Argentina e o Paraguai, simboliza a integração sul‑americana. Para o estado do Paraná, que tem forte presença no agronegócio – soja, milho, carne de frango – o evento pode ser um impulso econômico direto, gerando investimentos e visibilidade internacional.
Como a assinatura pode impactar o produtor familiar
Quando falamos de acordos internacionais, a gente costuma imaginar grandes exportadores e multinacionais. Mas o efeito pode chegar até o pequeno produtor:
- Cooperativas podem ganhar acesso a novos mercados, aumentando a renda dos agricultores familiares.
- Programas de certificação (como orgânico ou de comércio justo) tendem a ser mais valorizados na UE, o que pode abrir nichos de exportação.
- Investimento em infraestrutura – armazéns, estradas, ferrovias – costuma crescer quando há perspectiva de maior volume de exportação.
Desafios que ainda precisam ser superados
Mesmo com a assinatura, o acordo ainda depende da aprovação do Conselho Europeu, que requer maioria qualificada (15 dos 27 países e 65% da população). Além da França e Itália, Polônia, Hungria e Áustria podem ser críticos. Se algum desses países vetar, o pacto pode ser adiado novamente.
Outro ponto delicado são as salvaguardas agrícolas. Elas foram reforçadas no texto aprovado pelo Parlamento, o que significa que a UE tem mais margem para reverter benefícios tarifários caso considere que setores como laticínios ou vinhos estejam em risco. Para o Brasil, isso pode significar que alguns produtos terão que enfrentar tarifas temporárias, exigindo estratégias de diversificação.
O que podemos esperar nos próximos meses?
Até o final de 2025, a expectativa é que o acordo seja ratificado por todos os países da UE e pelos membros do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai). Se tudo correr bem, poderemos ver:
- Um aumento de 20% a 30% nas exportações agrícolas brasileiras para a UE.
- Novas linhas de crédito e seguros para produtores que buscam exportar.
- Pressão por maior sustentabilidade e redução de desmatamento, exigências que a UE costuma colocar em acordos comerciais.
Mas, como toda negociação internacional, o caminho ainda tem curvas. O que importa agora é manter o diálogo aberto, garantir que os agricultores europeus entendam que a competição pode ser saudável e que o Brasil está disposto a ceder em alguns pontos para alcançar um acordo equilibrado.
Conclusão: por que você deve ficar de olho
Se você trabalha no campo, tem uma pequena fazenda ou está envolvido em alguma cadeia produtiva do agronegócio, o acordo UE‑Mercosul pode mudar o cenário de preços, demanda e até de políticas de apoio ao produtor. Mesmo que a assinatura ainda dependa de alguns votos, o simples fato de que o tema está em pauta já traz um clima de expectativa que pode abrir portas para novos investimentos.
Para quem acompanha a política internacional, a postura de Lula ao cobrar França e Itália mostra que o Brasil está disposto a ser protagonista nas negociações, sem deixar de lado a necessidade de proteger seus próprios interesses. E, para nós, consumidores, pode significar produtos mais variados e, quem sabe, mais baratos nas mesas europeias.
Fique atento às próximas notícias, porque a assinatura em Foz do Iguaçu pode ser só o começo de uma nova fase para o agronegócio brasileiro.



