Eu acompanho o assunto há algum tempo, porque o futuro do nosso agro está literalmente na balança. Na última quarta‑feira (17), a União Europeia chegou a um acordo provisório sobre as chamadas *salvaguardas agrícolas* – um mecanismo que pode suspender o acesso preferencial dos produtos do Mercosul ao mercado europeu caso os preços caiam ou as importações aumentem demais. Parece papo de burocracia, mas, na prática, pode mudar a forma como carne, soja, açúcar e outras commodities brasileiras chegam às mesas dos consumidores europeus.
## Por que a UE está apertando o gatilho?
A ideia das salvaguardas não é nova. Elas foram criadas para proteger os agricultores europeus de choques repentinos no mercado, como uma enxurrada de importações baratas que derrubam os preços internos. No caso do Mercosul, a preocupação vem principalmente da França e da Itália, que têm setores agrícolas bastante sensíveis. Esses países temiam que a abertura total das tarifas – prometida no acordo de livre comércio – deixasse suas fazendas vulneráveis.
O que mudou agora foi o nível de ativação. A Comissão Europeia propôs inicialmente um gatilho de 10 % de aumento nas importações ou queda nos preços. O Parlamento, porém, negociou e acabou aceitando um patamar de **8 %**. Ou seja, se em três anos a Europa importar, por exemplo, 8 % a mais de carne bovina do Mercosul, ou se os preços caírem 8 % em relação à média dos últimos três anos, o mecanismo pode ser acionado e o acesso preferencial será suspenso temporariamente.
## Como isso afeta o produtor brasileiro?
Para quem trabalha no campo, a notícia gera duas sensações opostas: alívio e preocupação. Alívio porque o acordo ainda avança e abre portas – ainda que com ressalvas – para os nossos produtos. Preocupação porque a incerteza pode tornar mais difícil planejar investimentos de longo prazo.
### Pontos positivos
– **Continuidade do acesso**: Enquanto o gatilho não for acionado, os produtos brasileiros continuam com tarifas reduzidas ou zero, o que garante competitividade frente a outros fornecedores.
– **Visibilidade internacional**: O fato de o bloco europeu estar disposto a negociar salvaguardas mostra que há espaço para o Brasil ser visto como parceiro confiável, não apenas como concorrente.
– **Incentivo à qualidade**: Parte do acordo inclui verificações sobre agrotóxicos e saúde animal. Isso pode pressionar o setor a melhorar padrões, o que, a longo prazo, abre portas para mercados mais exigentes.
### Pontos de atenção
– **Volatilidade de preços**: Se o preço da soja ou da carne cair muito no mercado internacional, a UE pode acionar a salvaguarda e colocar tarifas de volta, reduzindo a margem dos exportadores.
– **Dependência de um único mercado**: Muitos produtores ainda concentram grande parte das exportações na Europa. Uma suspensão de preferências pode gerar perdas significativas em curto prazo.
– **Incerteza regulatória**: As verificações sobre agrotóxicos podem exigir adaptações rápidas nas práticas agrícolas, o que implica custos adicionais.
## O que o Brasil pode fazer?
A resposta não está só nas negociações diplomáticas; ela começa na própria cadeia produtiva.
1. **Diversificar mercados**: Enquanto a UE é um destino estratégico, ampliar a presença na Ásia, Oriente Médio e América do Norte reduz a dependência de um único bloco.
2. **Investir em tecnologia**: Sistemas de monitoramento de preços e de gestão de risco ajudam a antecipar movimentos de mercado e a reagir antes que a salvaguarda seja acionada.
3. **Melhorar a rastreabilidade**: Cumprir as normas de agrotóxicos e saúde animal não é só requisito para a UE; é um diferencial competitivo que pode ser usado como selo de qualidade em outros mercados.
4. **Fortalecer a lobby setorial**: Agronegócio, associações de produtores e o governo precisam manter um diálogo constante com a UE, mostrando que o Brasil está comprometido com práticas sustentáveis.
## Cenário futuro: o que esperar da assinatura?
A cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, marcada para o próximo sábado (20), será decisiva. Se o acordo for assinado, ele ainda precisará ser ratificado pelos parlamentos dos países membros – tanto da UE quanto dos países do Mercosul. Esse processo pode levar meses, ou até anos, dependendo das pressões internas.
É importante lembrar que o acordo UE‑Mercosul já está em negociação há **26 anos**. Cada passo, mesmo que pequeno, representa um avanço significativo. A assinatura não garante que tudo será perfeito, mas abre um leque de oportunidades que, se bem aproveitadas, podem transformar a estrutura de exportação do Brasil.
## Um olhar pessoal
Quando penso no futuro do nosso agro, vejo duas realidades coexistindo. De um lado, há a **inovação**: novas tecnologias de plantio, biotecnologia, agricultura de precisão e práticas mais sustentáveis. Do outro, há a **geopolítica**, que muitas vezes parece um jogo de xadrez onde cada movimento tem consequências inesperadas.
Para nós, produtores e consumidores, o que importa é encontrar um equilíbrio. Não podemos controlar a decisão de um Parlamento europeu, mas podemos controlar como nos preparamos para ela. Se a UE decidir suspender as tarifas por algum motivo, quem tem uma cadeia diversificada e processos de produção alinhados às normas internacionais terá mais facilidade para redirecionar a produção e manter a rentabilidade.
## Conclusão
O acordo de salvaguardas agrícolas entre a UE e o Mercosul traz tanto **oportunidades quanto desafios**. Ele demonstra que o bloco europeu está disposto a negociar, mas também deixa claro que não abrirá mão da proteção de seus agricultores. Para o agro brasileiro, isso significa que o caminho para a consolidação como fornecedor global continua, porém com a necessidade de adaptar estratégias, melhorar padrões de qualidade e diversificar mercados.
Se você tem alguma experiência com exportação para a Europa, ou está acompanhando de perto as discussões, compartilhe nos comentários. A troca de informações é essencial para que todos nós – produtores, comerciantes e consumidores – possamos navegar melhor nesse mar de incertezas e oportunidades.
*Vamos ficar de olho nas próximas semanas e ver como evolui a assinatura em Foz do Iguaçu. Enquanto isso, o melhor caminho é se preparar, inovar e buscar novas fronteiras.*



