Na última sexta‑feira (19), a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, anunciou que a maioria dos Estados‑membros da UE está pronta para aprovar o acordo comercial com o Mercosul. O que era para ser assinado no sábado (20) foi adiado, mas a expectativa é que a assinatura aconteça ainda em janeiro, possivelmente em Assunção, no Paraguai. Para quem acompanha de perto as notícias de comércio exterior, isso pode parecer mais um capítulo de burocracia. Mas, na prática, o adiamento traz alguns sinais importantes que vale a pena entender.
O que está em jogo?
O tratado Mercosul‑UE foi negociado ao longo de 25 anos. Ele prevê a redução gradual de tarifas sobre centenas de produtos – de soja e carne bovina a máquinas‑ferramenta e produtos farmacêuticos – além de regras comuns sobre investimentos, propriedade intelectual e padrões regulatórios. Se aprovado, será a maior zona de livre comércio do mundo, conectando um bloco que produz cerca de 30 % dos alimentos consumidos na Europa.
Por que o acordo foi adiado?
O adiamento não foi um revés inesperado. A Itália, alinhada à França, pediu mais tempo para garantir salvaguardas ao seu setor agrícola. O presidente francês, Emmanuel Macron, tem sido o porta‑voz de agricultores que temem concorrência de produtos sul‑americanos mais baratos e produzidos sob normas ambientais diferentes. Enquanto isso, Alemanha e Espanha defendem o acordo como forma de diversificar mercados e reduzir a dependência dos EUA e da China.
Ursula von der Leyen explicou que a Comissão entrou em contato com os parceiros do Mercosul e concordou em “adiar ligeiramente a assinatura”. Ela está confiante de que a maioria qualificada – pelo menos 15 dos 27 países, representando 65 % da população da UE – será alcançada no Conselho Europeu.
Quem está a favor e quem está contra?
- Pró‑acordo: Alemanha, Espanha e países nórdicos. Eles veem o tratado como um caminho para compensar tarifas americanas e garantir acesso a minerais e novos mercados.
- Contra‑acordo: França (principal opositor), Itália (condicional), e agricultores de vários países que protestaram em Bruxelas, chegando a queimar pneus e lançar batatas contra a polícia.
- Neutros/Esperançosos: Brasil, liderado por Lula, que mantém contato direto com a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, e acredita que a pressão política pode ser suavizada.
O que isso significa para o produtor brasileiro?
Para quem planta soja, milho, carne ou café, o acordo pode abrir portas para exportar mais volume a preços mais competitivos. As tarifas que hoje chegam a 10 %‑15 % sobre alguns produtos poderiam cair para quase zero. Isso não só aumenta a margem de lucro, mas também dá mais segurança para investimentos em tecnologia e expansão de áreas de cultivo.
Entretanto, há um ponto de atenção: o acordo inclui cláusulas de “safeguard” que permitem à UE reintroduzir tarifas temporárias se houver um “impacto significativo” nos produtores europeus. Por isso, o Brasil precisa fortalecer a rastreabilidade, garantir padrões de sustentabilidade e investir em certificações que atendam às exigências europeias.
E para o consumidor europeu?
Os europeus podem esperar encontrar frutas, carnes e grãos sul‑americanos nas prateleiras com preços mais baixos. Isso pode ser benéfico para o bolso, mas também gera discussões sobre a origem dos alimentos e os impactos ambientais. Muitos consumidores estão cada vez mais atentos a rótulos que indiquem práticas de desmatamento ou uso intensivo de agrotóxicos.
Além disso, a redução de tarifas pode incentivar empresas europeias a investir em cadeias produtivas no Mercosul, trazendo tecnologia e empregos para a região. É um ganho mútuo, se bem gerido.
Qual o papel da política interna na UE?
O processo de aprovação não é simples. Diferente do Parlamento, onde basta maioria simples, o Conselho Europeu exige maioria qualificada – 15 países que representem 65 % da população. Isso significa que, mesmo que a maioria dos governos esteja a favor, a falta de apoio de países grandes como França ou Itália pode bloquear o tratado.
Os agricultores franceses e italianos têm poder de barganha porque representam eleitores decisivos nas próximas eleições. Por isso, a UE tem buscado “salvaguardas” – medidas que protejam os produtores locais em casos de flutuações bruscas de preço.
O que esperar nos próximos meses?
1. Novas negociações de salvaguardas – França e Itália provavelmente vão pressionar por cláusulas que limitem importações de carne bovina e laticínios nos primeiros anos.
2. Visita de líderes – Se o acordo avançar, Ursula von der Leyen pode viajar ao Brasil para ratificar o tratado, reforçando a importância diplomática.
3. Reação do mercado – Já há sinais de que investidores estão ajustando suas carteiras, antecipando maior fluxo de commodities sul‑americanas para a Europa.
4. Impacto nas políticas agrícolas – Tanto a UE quanto o Mercosul podem rever suas estratégias de sustentabilidade para atender às exigências de consumidores e reguladores.
Conclusão
O adiamento da assinatura do acordo Mercosul‑UE não deve ser encarado como um fracasso, mas como um momento de ajuste. Para o Brasil, a mensagem é clara: há demanda europeia por nossos produtos, mas ela vem acompanhada de expectativas de sustentabilidade e transparência. Para a Europa, o tratado representa uma oportunidade de diversificar fontes de alimentos e reduzir a dependência de outros blocos econômicos.
Se a maioria qualificada for alcançada, o próximo passo será a ratificação pelos parlamentos nacionais – um processo que pode levar meses, mas que já está em marcha. Enquanto isso, produtores, consumidores e políticos têm tempo de se preparar, adaptar e, quem sabe, transformar esse grande acordo em um verdadeiro motor de desenvolvimento para ambos os continentes.


