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Lula e a indecisão da UE: o que está em jogo no acordo Mercosul‑UE?

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Lula e a indecisão da UE: o que está em jogo no acordo Mercosul‑UE?

Na última quarta‑feira, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez um discurso que, para quem acompanha a política internacional, parece um sinal de alerta: a União Europeia ainda não decidiu se vai assinar o tão aguardado acordo de livre comércio entre o bloco europeu e o Mercosul. Mas, além da notícia em si, o que isso significa para a gente, que vive de notícias econômicas, de empregos e de produtos que chegam das fazendas sul‑americanas?

Um acordo que já dura 26 anos

O tratado entre Mercosul e UE começou a ser negociado em 1999. Na época, a ideia era criar a maior zona de livre comércio do planeta, juntando os 27 países da UE com os cinco do Mercosul (Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela – embora esta última esteja suspensa). Se tudo acontecer, vamos ter um fluxo muito maior de produtos agrícolas, automóveis, máquinas e até serviços de tecnologia.

Por que a UE ainda está hesitante?

O ponto de ruptura está nos agronegócios. Agricultores franceses e italianos temem que o mercado europeu seja inundado por soja, carne bovina e milho sul‑americanos, que são mais baratos por causa de custos de produção menores. O presidente francês, Emmanuel Macron, e a primeira‑ministra italiana, Giorgia Meloni, deixaram claro que não vão fechar os olhos para essas preocupações.

Além disso, a própria estrutura do acordo foi modificada nos últimos dias. O Parlamento Europeu aprovou mecanismos de salvaguarda mais rígidos, o que significa que a UE quer garantir que, se houver um aumento súbito nas importações, ela possa colocar tarifas de contenção. Essa mudança tornou o texto mais difícil de ser aceito pelo Conselho Europeu, que precisa de maioria qualificada (15 países que representem 65 % da população da UE).

O que Lula está dizendo – e por quê

Em Brasília, na Granja do Torto, Lula reuniu seus ministros para fazer um balanço do ano e projetar metas para 2026. Entre as várias pautas, ele enfatizou a frustração com a UE: “Nós cedemos tudo que era possível ceder”. Em outras palavras, o Brasil já fez concessões – como abrir o mercado de automóveis e reduzir tarifas em alguns setores – e ainda sente que o acordo está mais favorável à Europa.

Ele também explicou a mudança de data da cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, que foi adiada de 20 de novembro para 20 de dezembro a pedido da UE, que alegou precisar de mais tempo para aprovar o acordo. Agora, segundo Lula, a UE pode não conseguir aprovar até a nova data.

Como isso afeta a gente no dia a dia

  • Preços dos alimentos: Se o acordo for aprovado, produtos como carne bovina, frango e soja podem ficar mais baratos no mercado europeu. Isso pode abrir portas para exportadores brasileiros, mas também gerar competição mais acirrada para produtores locais que exportam para a UE.
  • Empregos: Um aumento nas exportações pode gerar mais vagas na cadeia produtiva – transporte, logística, agroindústria. Por outro lado, setores que dependem da importação de produtos europeus (como vinhos, queijos e máquinas) podem sentir pressão por preços mais baixos.
  • Investimentos: Empresas europeias podem se sentir mais seguras para investir em fábricas ou centros de distribuição no Brasil, já que o acordo reduz barreiras tarifárias.
  • Meio ambiente: Há críticas de ONGs que temem que a expansão da agropecuária para atender à demanda europeia aumente o desmatamento na Amazônia e no Cerrado.

Os principais atores europeus

Além da França e da Itália, outros países têm papéis decisivos:

  • Polônia e Hungria: também mostraram resistência, principalmente por questões agrícolas.
  • Áustria e Irlanda: podem se posicionar contra, mas ainda não deixaram claro seu voto.
  • Bélgica: já indicou que se absterá, o que pode diminuir a margem de aprovação.

Esses países formam um bloco que, somado à França, pode impedir a maioria qualificada necessária para que o Conselho Europeu dê o aval final.

O que pode acontecer a seguir?

O calendário ainda está aberto. O Conselho Europeu tem reuniões previstas para os dias 18 e 19 de novembro, e a expectativa era que o acordo fosse votado ainda nessa semana. Se a votação falhar, Lula disse que o Brasil será “duro” nas negociações futuras. Na prática, isso pode significar que o país volte a pressionar por concessões ainda maiores ou, quem sabe, procure outros parceiros comerciais.

Por outro lado, se a UE conseguir aprovar, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, deve viajar ao Paraná para assinar o tratado. Isso seria um marco histórico, mas ainda há muito caminho a percorrer.

Perspectivas para 2026

Estamos a dois anos das próximas eleições presidenciais no Brasil. Um acordo comercial bem‑sucedido pode ser usado como argumento de campanha, mostrando que o governo conseguiu abrir novos mercados e gerar empregos. Por outro lado, se o acordo falhar, a oposição pode usar a situação para criticar a condução da política externa.

Para quem acompanha a política econômica, a lição aqui é clara: acordos internacionais são longos, cheios de detalhes técnicos e, muitas vezes, dependem de questões internas de cada bloco. Não basta apenas negociar; é preciso alinhar interesses domésticos – como os agricultores franceses – com os objetivos globais.

Conclusão – vale a pena ficar de olho?

Sim, vale muito. Mesmo que você não exporte soja ou não trabalhe em logística, o resultado desse acordo pode mudar preços nas prateleiras, influenciar a taxa de câmbio e impactar decisões de investimento no Brasil. E, claro, ele demonstra como a diplomacia econômica funciona na prática: concessões, pressões internas e um jogo de interesses que vai muito além das mesas de negociação.

Então, da próxima vez que ouvir alguém falar que o comércio internacional é “um bicho de sete cabeças”, lembre‑se: por trás de cada cláusula há agricultores, empresários, políticos e, no fim das contas, consumidores como nós, que sentem o efeito na conta bancária e no prato de jantar.