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25 anos de negociação UE‑Mercosul: o que mudou e o que isso significa para o nosso dia a dia

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25 anos de negociação UE‑Mercosul: o que mudou e o que isso significa para o nosso dia a dia

Na última sexta‑feira (9), a União Europeia deu um passo histórico ao aprovar, provisoriamente, o acordo comercial com o Mercosul. Essa decisão abre caminho para a assinatura formal em 17 de janeiro e, se tudo correr bem, cria a maior zona de livre comércio do planeta. Mas, para quem não acompanha as notícias de diplomacia, o que isso realmente traz para a nossa vida? Vamos destrinchar a trajetória de 25 anos de conversas, entender os pontos críticos e analisar como esse pacto pode influenciar o preço dos alimentos, a oferta de produtos e até as políticas ambientais no Brasil.



Um breve histórico: de Assunção a 2026

Em 1991, Brasil, Argentina, Uruguai e Paraguai assinaram o Tratado de Assunção, dando origem ao Mercosul. Na época, a UE já enxergava o bloco sul‑americano como um parceiro estratégico, tanto por seu potencial de mercado quanto pela influência política na região.

Três anos depois, em 1994, a ideia de um acordo formal ganhou força, impulsionada pela proposta da Área de Livre Comércio das Américas (ALCA), liderada pelos EUA. A UE, querendo equilibrar a presença americana na América do Sul, começou a traçar sua própria estratégia de aproximação.



Em 1995, os blocos firmaram o Acordo‑Quadro de Cooperação Inter‑regional, estabelecendo bases políticas, institucionais e econômicas, além de mecanismos de diálogo e cooperação técnica. Esse foi o ponto de partida das negociações formais, que teriam início oficial em 1999, organizadas em três frentes: diálogo político, cooperação e livre comércio.

Os principais impasses ao longo das duas décadas

Desde o começo, surgiram divergências difíceis. Os agricultores europeus defendiam subsídios que mantinham os preços internos elevados, enquanto os produtores sul‑americanos queriam acesso ao mercado europeu sem barreiras tarifárias. Por outro lado, a UE cobrava a abertura dos setores industriais do Mercosul, algo que os países sul‑americanos relutavam em conceder.

O ponto de maior tensão foi entre 2004 e 2010, quando o processo praticamente parou. Na Europa, políticas protecionistas ganharam força, e na América do Sul, mudanças políticas – como a ascensão de governos mais nacionalistas – dificultaram a continuidade das conversas.



Em 2016, o cenário mudou novamente. A UE buscava novos acordos comerciais para reforçar sua competitividade global, enquanto o Mercosul, após uma série de crises econômicas, viu na negociação uma oportunidade de diversificar mercados e atrair investimentos.

O que mudou no acordo técnico de 2019

Em 2019, os blocos anunciaram a conclusão técnica do acordo político. O texto previa a eliminação gradual de tarifas sobre cerca de 90 % do comércio bilateral, além de regras comuns para serviços e compras públicas. No entanto, críticas ambientais – sobretudo relacionadas ao desmatamento na Amazônia – e resistências internas em países como França e Polônia impediram a ratificação imediata.

Entre 2020 e 2022, a UE passou a exigir compromissos ambientais mais rigorosos, alinhados ao Acordo de Paris. Em 2023, foi apresentado um instrumento ambiental adicional, que o Mercosul aceitou em parte, mas contestou a previsão de sanções unilaterais.

Os números que importam para o consumidor brasileiro

  • Tarifas agrícolas: a maioria das tarifas sobre produtos como carne bovina, suco de laranja e açúcar será reduzida ao longo de 10‑15 anos.
  • Produtos industriais: setores como automóveis e máquinas terão acesso facilitado ao mercado europeu, o que pode gerar investimentos em fábricas no Brasil.
  • Serviços e compras públicas: empresas brasileiras poderão participar de licitações na UE, potencialmente ampliando exportações de tecnologia e consultoria.

Para o cidadão comum, a expectativa é que alguns produtos importados – como vinhos, queijos e cereais – fiquem mais baratos, enquanto a concorrência para produtores locais pode aumentar. Isso pode significar preços mais competitivos nas prateleiras, mas também exige que os agricultores e indústrias brasileiras se modernizem para manter a competitividade.

Desafios ambientais e a questão do desmatamento

Um dos maiores obstáculos ainda é a exigência europeia de combate ao desmatamento. A UE quer garantias de que o aumento das exportações agrícolas não venha à custa da floresta amazônica. O acordo inclui cláusulas que vinculam o acesso ao mercado a metas de redução de desmatamento, o que pode pressionar o governo brasileiro a fortalecer políticas de fiscalização.

Se bem implementado, esse mecanismo pode trazer benefícios globais – menos emissões de CO₂ e preservação da biodiversidade. Por outro lado, se as metas forem consideradas excessivamente rígidas, podem gerar atritos políticos e atrasar a plena entrada do acordo.

Próximos passos e o que observar nos próximos meses

Com a aprovação provisória da UE, ainda restam duas etapas cruciais: a ratificação pelo Parlamento Europeu e a aprovação pelos congressos dos países sul‑americanos (Brasil, Argentina, Paraguai e Uruguai). Cada um desses órgãos pode propor emendas ou solicitar revisões, o que pode alongar o processo.

Além disso, a reação de setores agrícolas europeus – especialmente da França, Polônia e Irlanda – pode influenciar a velocidade da ratificação. Se houver forte lobby contra a abertura do mercado europeu para produtos sul‑americanos, a UE pode renegociar alguns capítulos.

Como isso afeta o seu bolso?

Em termos práticos, a assinatura do acordo pode trazer duas mudanças perceptíveis:

  1. Preços mais baixos em alguns alimentos importados: produtos como carne de boi e suco de laranja podem ganhar competitividade, reduzindo custos para o consumidor final.
  2. Mais opções no mercado: a chegada de vinhos europeus, queijos e produtos de confeitaria pode diversificar a oferta nas prateleiras, trazendo mais variedade.

Entretanto, produtores locais podem enfrentar maior concorrência, o que pode pressionar margens de lucro e exigir investimentos em tecnologia e sustentabilidade.

O futuro da integração econômica entre Europa e América do Sul

Se o acordo for ratificado integralmente, estaremos diante de uma zona de livre comércio que abrange mais de 800 milhões de consumidores. Isso abre portas para novas cadeias de suprimentos, investimentos em infraestrutura e cooperação em áreas como energia renovável e pesquisa.

Para o Brasil, a oportunidade de se posicionar como fornecedor de commodities sustentáveis e de alta qualidade pode ser um diferencial competitivo. Para a UE, o acesso a matérias‑primas e alimentos de forma mais barata ajuda a reduzir a dependência de outros fornecedores globais.

Em resumo, os 25 anos de negociação foram marcados por altos e baixos, mas o momento atual pode representar o ponto de virada que ambos os blocos esperavam. Cabe a nós, cidadãos e empreendedores, acompanhar de perto as discussões, entender como elas impactam nossos hábitos de consumo e, quem sabe, aproveitar novas oportunidades de negócios que surgirão.

Fique atento às próximas notícias sobre a ratificação nos congressos e ao debate sobre as cláusulas ambientais – esses serão os indicadores que definirão se o acordo será um sucesso econômico ou um ponto de discórdia política.